23 de jun de 2010

CRIA CRUERVOS...


Em Caxias do Sul, depois que um conselheiro tutelar se escandalizou com um casalzinho de menos de 10 anos no maior amasso durante uma festa junina regada a funk, querem banir o funk do recreio das escolas.

Não vai adiantar nada. Ao contrário: vai piorar.

Não é nem tapar o sol com a peneira, é muito pior, porque não é o funk o culpado disso ou daquilo: o funk é um sintoma, não a doença.

De mais a mais, quem é pai/mãe de adolescente sabe muito bem que a proibição só faz aumentar o desejo. Proibição nunca resolveu nada, o que resolve é aumentar a massa crítica. E pra aumentar a massa crítica é preciso percorrer o caminho inverso, trazendo o funk do recreio para a sala de aula.

E entender que o funk é só um sintoma, não um "mal" em si. É só o produto da enésima geração vítima do apartheid tupiniquim, uma geração que nega os valores ditos "sociais" porque nasceu e cresceu na miséria vendo quem desceu do morro pelo bonde da criminalidade receber tapetes vermelhos em Ipanema e no Leblon; enquanto a imensa maioria que labuta de sol a sol entra e sai todo o dia de cabeça baixa pela porta de serviço.

Ao invés de civilizar as favelas, de promover a dignidade e cidadania nos morros; é a nossa classe média que está se favelizando.

Cría cuervos y te sacarán los ojos (crie corvos, e eles te arrancarão os olhos).

22 de jun de 2010

O GOLAÇO DE TOSTÃO




Ao saber que Lula pretende outorgar um prêmio de mais de 400 mil a todos os jogadores da seleção que participaram de campanhas vitoriosas na Copa do Mundo, Tostão escreveu:

Na semana passada, ao chegar de férias, soube, sem ainda saber detalhes, que o governo federal vai premiar, com um pouco mais de R$ 400 mil, cada um dos campeões do mundo, pelo Brasil, em todas as Copas.


Não há razão para isso. Podem tirar meu nome da lista, mesmo sabendo que preciso trabalhar durante anos para ganhar essa quantia.


O governo não pode distribuir dinheiro público. Se fosse assim, os campeões de outros esportes teriam o mesmo direito. E os atletas que não foram campeões do mundo, mas que lutaram da mesma forma? Além disso, todos os campeões foram premiados pelos títulos.


Após a Copa de 1970, recebemos um bom dinheiro, de acordo com os valores de referência da época...


O que precisa ser feito pelo governo, CBF e clubes por onde atuaram esses atletas é ajudar os que passam por grandes dificuldades, além de criar e aprimorar leis de proteção aos jogadores e suas famílias, como pensões e aposentadorias.


É necessário ainda preparar os atletas em atividade para o futuro, para terem condições técnicas e emocionais de exercer outras atividades.


A vida é curta, e a dos atletas, mais ainda.


Alguns vão lembrar e criticar que recebi, junto com os campeões de 1970, um carro Fusca da prefeitura de São Paulo. Na época, o prefeito era Paulo Maluf. Se tivesse a consciência que tenho hoje, não aceitaria.


Tinha 23 anos, estava eufórico e achava que era uma grande homenagem.


Ainda bem que a justiça obrigou o prefeito a devolver aos cofres públicos, com o próprio dinheiro, o valor para a compra dos carros.


Não foi o único erro que cometi na vida. Sou apenas um cidadão que tenta ser justo e correto. É minha obrigação.

Aplaudo de pé.

18 de jun de 2010

LUTO



Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.


Poema à Boca Fechada
José Saramago (16/11/1922-18/06/2010)