27 de jul de 2008

SOLIDARIEDADE

Na verdade, a solidariedade é tão simples, que ficamos sem desculpas.

Um exemplo: na próxima vez que for gastar 600 Reais pra comprar um modelito desses:



Separe 5 pra quem só pode usar esse modelito:

12 de jul de 2008

PARAFRASEANDO HAMLET

Enquanto milhares de processos cuja rápida expedição beneficiaria a boa justiça aparentemente não vêm a luz no fim do túnel, o ministro do supremo (de plantão nas férias de seus pares) não parece ver qualquer impedimento moral em livrar do embaraço do justo e merecido xilindró os capitães da lama que nos enxovalha a todos e faz do Brasil essa triste figura no cenário mundial.

Há algo de podre no reino do STF.

7 de jul de 2008

OUTRA VERDADE INCÔMODA

Hoje não é uma segunda normal. O normal seria ser ter meu sono perturbado desde as 4 da manhã pelo bucólico clip-clop seguido do farfalhar dos sacos plásticos revirados pelos catadores. Não aconteceu. Ao descer com o lixo, aí pelas 8 e meia, reparo não sem tristeza, na ausência da simpática senhora gordinha de óculos que costuma estar separando o lixo do outro lado da rua. Em dias normais, ela já está de plantão desde as 6 da manhã, distribuindo metodicamente nossos refugos: garrafas plásticas de um lado, caixas e papéis de outro, sacos e embalagens aqui e ali. Lá pelas 9 e meia, 10 horas, seu companheiro estacionaria a carroça, começando a carregar o lixo da rua. De duas a três viagens seriam necessárias para carregar todo o lixo da rua, e a operação se encerraria por volta das 2-3 da tarde. Durante todo esse tempo, a simpática senhora gordinha de óculos permaneceria de prontidão, atenta a qualquer residente retardatário.

Coisa de um mês atrás, ela fazia uma boa bagunça. Certa manhã, decidi intervir, pedindo educadamente que evitasse deixar restos espalhados. Com um sorriso ela aquiesceu. Fiz a minha parte, cuidando de dispor em sacolas separadas as garrafas, latas, plásticos e papéis. Passamos a nos cumprimentar, e ela, seu companheiro e a carroça passaram a fazer parte de meu ritual matinal das segundas-feiras. Meu primeiro contato humano da semana: uma troca de olhares, um sorriso e um aceno entre dois seres humanos separados tão somente pelas oportunidades com que a vida nos brindou.

Sei que sua presença incomodava o pessoal dos escritórios, que costuma estacionar de graça o dia inteiro, atulhando a rua com seus carros flex cinza (nas variações do prata ao grafite), pretos, brancos ou vermelhos (em suas nuances) - já repararam que 90% dos carros circulando por aí são nessas cores? Essas pessoas achavam ruim, porque por conta da simpática senhora gordinha de óculos tinham que estacionar mais adiante, o que os forçava a caminhar algumas dezenas de metros a mais toda a manhã de segunda. Esse pessoal não via a simpática senhora gordinha de óculos como uma trabalhadora prestando um serviço inestimável, mas sim como um incômodo lembrete de que Porto Alegre não é New York, e o Brasil ainda está muito longe de ser uma plena democracia com igualdade de direitos e oportunidades para todos.

Hoje ela não apareceu. Numa apocalíptica antevisão do que será nossa realidade em oito anos quando entrar em vigor a lei do banimento das carroças, a rua amanheceu livre do clip-clop e dos bostalhões. Alheias a isso, as pessoas dos escritórios desfilam conversando animadamente em seus celulares (elas nunca se dirigem a outro ser humano em carne e osso) sobre as futilidades da vida e do final de semana.

Como por mágica, meu lixo sumiu da calçada - quase como ele some em nossas fantasias do que acontece nos países do primeiro mundo, onde tudo é ordeiro, limpo e perfeito.

Fiquei a cismar, sentindo falta daquela troca de olhares, do sorriso e do aceno que por pouco que pareçam, de certa forma iluminavam minhas manhãs de segunda. Não posso deixar de pensar que esse afã pelo "progresso" só progride no sentido de nos destituir inexoravelmente das qualidades humanas que faziam do Brasil um lugar bom de se viver, um lugar onde na mais negra miséria e falta de perspectivas os corações ainda sabiam o caminho que leva à alegria de viver.

A cada ano que passa, vejo crescerem alarmantemente os sintomas da "prosperidade": individualismo, egoísmo, oportunismo, arrivismo e insensibilidade, enquanto na mídia abundam "receitas" pra driblar a depressão, a ansiedade, o stress, a hipertensão, a síndrome do pânico; e ao mesmo tempo ser sexy, bem-sucedido e proteger e multiplicar seu "patrimônio" - que inclui de forma esquizofrênica família, amigos e felicidade, como se fossem mensuráveis, quantificáveis e catalogáveis em termos de custo x benefício.

Vejo nas carroças o signo emblemático da opção dos arrivistas brasileiros por uma sociedade fria, desumana, insensível, sumamente egoísta e imediatista; mais propensa a banir do que lidar madura e racionalmente com seus defeitos e fragilidades. O expurgo das carroças, sob o pretexto de uma fantasiada melhoria no trânsito da cidade (como acabar com os engarrafamentos se todo o ano a frota cresce em pelo menos 30% enquanto as ruas permanecem as mesmas?); é o gesto simbólico de varrer para debaixo do tapete a incômoda realidade medieval da imensa maioria de nossa população; ao invés de buscar sua inclusão no século XXI.

Como Diógenes, acendo minha vela em plena luz do dia, na esperança de encontrar eco ao meu grito solitário por uma humanidade aparentemente perdida para as máquinas possantes e os telões de plasma. E sinto, sim, falta daquela troca de olhares, do sorriso e do aceno nas manhãs de segunda porque, enfim, é preciso força de caráter para saudar um semelhante com um sorriso acolhedor mesmo estando no meio do lixo.

4 de jul de 2008

CONSELHEIRO ACÁCIO

Nos jornais hoje:

Envolta em uma crise política, a governadora Yeda Crusius convocou um especialista americano em opinião pública para auxiliar o Piratini a tomar decsões sobre a administração.

A matéria segue então discorrendo sobre as credenciais do yankee, destacando o brilhantismo de sua "descoberta": "as posições da população com relação a temas polêmicos oscilam de acordo com o nivel de informação". Com base nisso, ele desenvolveu um sistema de avaliação progressiva no qual por alguns dias os participantes são isolados do convívio social, respondendo a sucessivos questionários à medida que vão debatendo e aprofundando seu conhecimento sobre um determinado assunto". Segundo ele, dois terços das pessoas mudam de opinião durante o processo. A pérola:

As pessoas que mais se informam são as que mais modificam suas opiniões. (Bidu!! Precisa PhD pra saber disso?!)

Segue-se uma entrevista com o PhD, onde entre respostas vagas e que denotam um conhecimento menos que superficial de nossa realidade, ele revela que executou trabalhos semelhantes na Bulgária, Tailândia e Irlanda do Norte.

Ah, há a questão dos custos, é claro: "ainda não dimensionamos os custos do projeto", que curto e grosso se resume a:

Mas não é no doutor que quero me concentrar, afinal ele não caiu do céu simplesmente: foi convidado e hospedado pela governadora às nossas custas para a implementação do "projeto" (já parou pra contar quantas vezes a governadore repete essa palavra?).

Se a Yeda não sabe por onde começar a governar, por que é que se candidatou?! Será que a gente precisa de um yankee pra dizer o que a gente precisa?

O que este fato evidencia é, de um lado, a total incompetência do atual executivo estadual e, por outro, uma alienação que chega às raias da esquizofrenia. Encracada por incompetentes, oportunistas, larápios e toda a sorte de parasitas, Yeda busca agora uma solução mágica (com as devidas credenciais "científicas"). Essa história toda não passa de um factóide sem outra conseqüência imediata que o prejuízo nos cofres públicos - abastecidos com o dinheiro do meu, do seu imposto.

Depois de, sob o pretexto de otimizar o custo-benefício na rubrica do ensino, "remanejar" as escolas públicas da rede estadual, fechando umas salas de aula para superlotar as outras, o governo estadual mostra-se pródigo em desperdiçar dinheiro poupado com basófias.

Dizem que cada povo tem o governo que merece. Acho que como gaúchos, é hora de nos perguntarmos o que fizemos pra merecer um (des)governo desses.

Acorda, Yeda. Quer começar a tomar decisões no Piratini? Pega um táxi, anda de ônibus, caminha pela rua: a realidade está fora das paredes do palácio e as opiniões e soluções também. De quebra, é de graça e não precisa nem falar inglês.