23/05/2013

A CENA QUE EU GOSTARIA DE VER


A 7ª mulher mais poderosa do planeta (segundo a Forbes) e chefe do Fundo Monetário Internacional - FMI, Christine Lagarde, compareceu hoje perante a Justiça francesa para responder sobre sua participação num esquema de "cumplicidade e falsificação de documentos e desvio de fundos públicos" no montante de 560 milhões de dólares.

O caso remonta a 1993 (auge a quebradeira generalizada que deixou milhões de pessoas desempregadas, e centenas de milhares sem teto, ao Deus dará); quando o ex-jogador de futebol Bernard Tapie, apoiador do partido de Laragde e Sarcozy, o UNP, e figurinha carimbada na França por vários trambiques e evasão de tributos; vendeu sua participação na Adidas ao Credit Lyonnais. Participação essa que o Credit Lyonnais logo tratou de revender por um lucro muito maior.

Sentindo-se lesado, Tapie recorreu a seus amigos no governo. Foi quando Christine Lagarde, então ministra da Economia da França, optou por submeter o caso a uma corte privada de arbitragem ao invés de submetê-lo ao sistema Judiciário. Sem muitas delongas, a corte privada condenou o consórcio de execução (CDR), o organismo público gestor do passivo do praticamente falido Credit Lyonnais a pagar 400 mil dólares mais juros a Tapie, a título de indenização.

Lagarde sempre justificou ter optado pela arbitragem movida pelo desejo de encerrar logo um processo que seria longo e dispendioso se entregue ao Judiciário, argumentando que a escolha fora "a melhor solução no momento". Em momento algum pareceu incomodada por ter usado seu poder para que 400 milhões do orçamento francês fossem parar nos bolsos de Tapie ao mesmo tempo que seu governo forçava a aprovação de inúmeras "medidas de austeridade", visando restabelecer o equilíbrio econômico pelo enxugamento da máquina pública - o que no jargão liberal significa privatizar serviços lucrativos do governo e restringir ao mínimo os serviços não lucrativas como ações sociais, saúde, pensões e aposentadorias e educação, e por aí a fora.

Ela já havia sido inquirida sobre o caso em 2008, mas com Sarcozy ainda no governo a denúncia não prosperou. Com a eleição de Hollande, o cenário mudou. O novo Procurador-Geral do Supremo Tribunal Federal francês, Jean-Louis Nadal, reabriu o caso, acusando Lagarde de recorrer à arbitragem privada em matéria envolvendo o erário público, de ter tido conhecimento da parcialidade dos juízes e árbitros que modificaram o protocolo original para incluir a noção de dano material, permitindo assim que Tapie recebesse a milionária indenização, paga pelos cofres públicos; num esquema que, segundo o Tribunal de Justiça da República, envolve "numerosas anomalias e irregularidades".

06/05/2013

A MUSA DESNUDA




- Cerveja, tabaco e música - observou - Ei-lo na sua pátria! Vejo que cultiva o estado de espírito nacional, senhor engenheiro. Apraz-me vê-lo no seu elemento natural. Deixe-me também participar do seu estado de harmonia!

Hans Castorp ajeitou-se na cadeira - aliás, já o fizera, assim que avistara o italiano. E disse:

- Mas chega atrasado ao concerto, senhor Settem,brini, já deve estar até a acabar. Não aprecia música?

- Não quando me é imposta - replicou Settembrini. - Não quando obedece ao calendário. Não quando cheira a farmácia e me é ditada de cima por motivos higiênicos. Tenho a minha liberdade em certa conta, ou pelo menos aquele resto de liberdade e de dignidade humana que não nos tiraram. (...) A música? Perguntava-me se me considero um amante da música? Bem, se fala em 'amante' ( o que, na verdade Hans castorp não lembrava de ter dito), tenho de admitir que o termo não é mal escolhido: comporta um laivo de frivolidade afetuosa. Muito bem, serei um amante da música, o que não quer dizer ainda que a preza de forma especial - como prezo e venero a palavra, o suporte do espírito, o instrumento, o arado fulgurante do progresso... a música... a música é o semiarticulado, o dúbio, o irresponsável, o indiferente. Calculo que me vá contrapor que a música pode assumir clareza. Mas também a natureza pode ser clara, um regatozinho pode ser claro - e que significado tem isso para a nossa vida? Não é a verdadeira clareza que está aqui em jogo, mas, sim, uma clareza sonhadora, vazia, que não nos obriga a nada, uma clareza sem consequências e, por isso, perigosa, porque nos induz ao conformismo... Mas imagine que a música assume uma feição magnânima. Pois bem, inflamará o nosso sentimento. Porém, o importante seria inflamar a nossa razão! Dizem que a música representa o próprio movimento - pois eu suspeito nela o estatismo. Deixe-me formular a questão em toda a sua controvérsia: nutro uma aversão política em relação à música.

Ao ouvir este comentário, Hans Castorp não pôde deixar de dar uma palmada no joelho e de exclamar que nunca na vida ouvira ideia semelhante.

- O que não deverá impedir de tomá-la em consideração! - respondeu Settembrini com um sorriso - A música é de um valor inestimável como meio supremo de arrebatamento, como força que nos faz avançar e voar mais alto quando o espírito já se acha preparado para a acolher. Mas a literatura deve tê-la precedido. A música, por si só, não faz o mundo avançar. A música, por si só, é perigosa.* E no seu caso concreto, caro engenheiro, é extremamente perigosa. Apercebi-me disso logo ao chegar, pelos traços do seu rosto.

Cada vez que zapeando pelos canais da TV a cabo me deparo com algum canal "de música", relembro esta passagem do livro A Montanha Mágica, escrito por Thomas Mann, que li há muitos anos atrás.

Pois é nesses canais que a juventude se consome consumindo essa monstruosidade que a indústria do entretenimento ofensivamente comercializa sob o rótulo "música"; como se Rihannas, Beyoncees e Justin Biebers possivelmente guardassem a mais remota semelhança a Brahms, Wagner, Grieg, Saint Saens... ou, para ser menos "elitista", Genesis, Led Zeppelin, Frank Zappa...; ou, pra não ofender os pruridos tupiniquins, Caetano Veloso, Chico Buarque ou Elis Regina.

Esse deplorável espetáculo de contorcionismo e pirotecnias arquitetadas para entorpecer os sentidos de tal forma que passe desapercebido o vácuo avassalador de conteúdo, é a prova cabal da perspicácia do personagem Settembrini.

E olha que esse livro foi escrito em 1924.

A música é, sim, de um valor inestimável como meio supremo de arrebatamento, como força que nos faz avançar e voar mais alto, mas só, e somente só quando o espírito já se acha preparado para a acolher.

Se não temos preparado os espíritos, que outra forma de arrebatamento seria de se esperar?

E não é que os jovens estejam mais burros ou estúpidos: eles carecem de fundamento, de nutrientes básicos para o desenvolvimento da crítica, do pensamento livre, da elaboração própria de conceitos, da visão de mundo que leva a um entendimento mais amplo tanto interno como externo.

O mais trágico é que vagamos entorpecidos e às escuras tendo a nosso alcance dezenas de séculos de criação intelectual, de pensamentos, de observações e conclusões.

Ao invés de lermos Sêneca, Marco Aurélio, Schopenhauer ou Kant, para citar alguns poucos homens de pensamento e visão que dedicaram mais que um pensamento fortuito a questões que ainda hoje nos afligem; consumimos a fast-food da auto-ajuda escrita por autores tão ou mais ignorantes do que nós. Cegos guiando cegos... a questão não é se, mas tão somente quando vamos todos cair desse desfiladeiro.

E vamos. Não tenha dúvidas: nenhuma cultura é eterna e nossa nêmesis já se aproxima. Prova disso é o clima apocalíptico que vem crescendo e dominando o imaginário coletivo.

O mundo não vai acabar tão cedo, pode ficar tranquilo. O que está agonizando à míngua é a cultura ocidental.

Porque decidimos tachar de "elitista", de "embolorado", de "velho" todo o conhecimento acumulado geração após geração ao longo de milênios; substituindo todo esse manancial pela esmola de instantãneos desfocados e mal enquadrados propagados por obscuras "celebridades".

A música, vestida de cultura, é maravilhosa, é fantástica, é uma força poderosa de mudança, de evolução, de exaltação; de plenitude, enfim.

Desnuda, a música é só ruído - que é muito do tudo que se ouve por aí.

* grifo meu

(Foto de Steffen Heilfort: estátua em mármore de Euterpe, "a doadora de prazeres", musa da música - acervo do palácio de Sanssouci, que em francês quer dizer "sem preocupação"; residência de verão de Frederico O Grande em Potsdam, próximo a Berlim)

03/05/2013

O LAMENTO DAS ÁRVORES



As árvores falam. Nós é que não escutamos.

Árvores saudáveis emitem sons totalmente diferentes de árvores sedentas ou estressadas.

Como as árvores emitem sons, se são desprovidas de "aparelho fonador"?

Foi observando as árvores, particularmente a maneira como elas absorvem a água do solo que muito se assemelha a bebermos suco de um canudinho, que um grupo de cientistas da Universidade de Grenoble, na França, se perguntou: se canudinhos fazem barulho, será que as árvores fazem barulho também?

Bingo!

A voz das árvores provém do xilema, o conjunto de dutos por onde circulam os nutrientes de forma similar ao nosso sistema vascular.

Mas a semelhança pára por aí: desprovido de um invólucro que contenha os líquidos, o xilema das árvores depende exclusivamente da força de atração das moléculas da água para que a circulação ocorra, e como as árvores não têm um coração para manter esse fluxo nem tampouco um sistema próprio de regulação térmica para mantê-lo na temperatura ideal para fluir, elas usam a pressão para forçar a circulação - uma pressão às vezes bem maior que a pressão atmosférica.

De maneira similar ao que ocorre quando chegamos ao fundo do copo com o canudinho, as árvores precisam aumentar a pressão para absorver a água. Esse aumento na pressão pode ocasionar rupturas nas colunas de água que constituem o xilema, permitindo a formação de bolhas de ar, um fenômeno que engenheiros e físicos denominam "cavitação":

A cavitação é um fenômeno originado em quedas repentinas de pressão, geralmente observado em sistemas hidráulicos. A combinação entre a pressão, temperatura e velocidade resulta na liberação de ondas de choque e micro-jatos altamente energéticos, causando a aparição de altas tensões mecânicas e elevação da temperatura, provocando danos na superfície atingida. (fonte: Wikipédia)

Há décadas que os cientistas e engenheiros florestais têm se debruçado sobre o fenômeno da cavitação, pois é responsável por uma crescente mortandade de árvores em parques, reservas e reflorestamentos.

Há milênios os povos nativos deste planeta têm ouvido o lamento das árvores. Mas nossa cultura cartesiana e nossos sentidos entorpecidos pelo bombardeio sensorial das cidades, somados à arrogância com que desdenhamos e marginalizamos tudo que não constitua um eco de nossas crenças e convicções só tornou o fato aceitável depois que muito dinheiro foi investido para que um time de cientistas entrasse em um laboratório altamente equipado, cortasse uma fatia de madeira de pinho e a inserisse em uma cápsula de gel líquido para simular as condições dentro de uma árvore viva, então evaporasse a água simulando uma seca para causar a cavitação, filmando, gravando e registrando a formação de bolhas dentro da madeira.

Dos sons registrados, só metade correspondia à cavitação em si. O resto advinha de outros processos como a invasão de células vizinhas. Mas o mais importante é que cada tipo de evento produzia um padrão sonoro único, numa amplitude acima da nossa capacidade auditiva.

Ao final desse experimento, o grupo concluiu que é possível que as árvores tenham um léxico, ou vocabulário e é possível desenvolver um dispositivo capaz de ouvir as árvores e emitir sinais correspondentes a cada padrão sonoro - basicamente um indicativo do "humor" das árvores.

Num futuro talvez não muito distante, e onde for economicamente interessante, é claro; veremos árvores com tais dispositivos presos em seus troncos. Como o que interessa e move tudo neste mundo é a economia, penso que tais dispositivos irão dispor tão somente de uma luz vermelha, indicando que aquela árvore está sofrendo uma crise de cavitação e precisa ser regada imediatamente.

Há que se levar em conta que o experimento foi conduzido em laboratório e usando um pedaço de madeira já estressado pelo corte. Também é relevante considerar a imensa variação na densidade da madeira (com efeito direto na quantidade de pressão existente dentro do xilema) de uma espécie para a outra - e são centenas de milhares de espécies no planeta.

Outro ponto relevante: o experimento tinha o objetivo específico de detectar os sinais de stress emitidos pela madeira pela falta de água, nada mais; porque os cientistas andam muito preocupados com o aumento das secas e suas consequências catastróficas para a economia, particularmente porque os desastres naturais decorrentes do aquecimento global não fazem distinção entre países ricos e pobres.

De minha parte, gostaria de ter um aparelhinho para escutar as árvores, particularmente para "conversar" com o amado plátano que habita em frente à minha janela.

Alguém bem que podia desenvolver um aplicativo para celular, assim qualquer um que quisesse só precisaria encostar o aparelho numa árvore para saber como ela anda de saúde.

Assim, prefeito nenhum poderia dizer que não estamos "aproveitando" as árvores.

De minha parte, as "aproveito" ao extremo toda a vez que olho pela janela - pra não dizer só toda a vez que respiro.

02/05/2013

O SHOW DE BLACHMAN




Em pleno Terceiro Milênio, o local é a Dinamarca, um desses países ditos "de primeiro mundo", para onde nós tupiniquins lançamos olhares de veneração. Afinal, eles são ricos, refinados, cultos, civilizados, não tratam as mulheres como coisas e por aí a fora.

Pois foi lá mesmo que o premiado músico de jazz Thomas Blachman (o cara tem nada menos que cinco Danish Music Awards) depois de assistir à lenta agonia do controvertido show de talentos "The X Factor" que trazia ao ar decidiu "inovar"* com um talk show "cultural" chamado "Blachman" levado ao ar pelo sinal aberto do canal estatal DR2, em rede nacional.

Por quê? O corpo feminino "tem sede dos comentários masculinos",  explica Blachman.

Funciona assim: dois sujeitos (ninguém se importa se eles são gordos, magros, carecas, repulsivos ou atraentes - um deles, é claro, é o próprio Thomas), sentam em poltronas contíguas numa sala escura como como um strip club barato.

Aí, uma mulher entra na sala vestindo só um robe, posiciona-se uns dois metros à frente dos dois cidadãos e deixa cair o robe.

Os homens então passam a comentar sobre seus detalhes anatômicos.

Aos "comentaristas", além de emitir relevantes pareceres sobre a "animação" dos mamilos da mulher em questão, também é permitido endereçar diretamente a mulher.

Talvez o talk show se tornasse minimamente interessante se a essa altura os comentaristas perguntassem à mulher sobre como ela vê a vida, a política, o que busca num homem, como vê o futuro, como sente seu corpo, como vê os homens, como vê o sexo, sei lá... mas a noção de cultura de Blachman carece de sutileza:

- E aí, como essa b*c**a está funcionando para você?

Sim, eu não estou mentindo. Isso foi de fato perguntado ao vivo e a cores para toda a Dinamarca ver.

A crítica logo caiu de pau, taxando o programa de chauvinista pra baixo.

Sentindo-se "incompreendido e injustiçado", o Blachman argumentou que só pretendia "revisar" a visão que as mulheres têm da visão dos homens sobre seus corpos. Aí pegou as malas e a cuia e se mandou de volta para Nova Iorque, reclamando: "a ingratidão está acabando com os poucos gênios que vivem em nosso país".

Que os Blachman da vida continuem inventando toda a sorte de baixarias pra faturar em cima da legião de trastes solitários que só conseguem se relacionar com bonecas infláveis não me espanta nem um pouco - basta ver as fortunas acumuladas pelos "criadores" de revistas, livros e filmes pornográficos.

O que não deixa de me assombrar é como é que em pleno século XXI ainda tem mulher que se preste pra isso e até fique ali parada, com um sorriso besta na cara.

* botei aspas, porque ainda tem um monte de gente por aí que parece (ou faz de conta) que não sabe que o nu frontal é uma "inovação" mais velha que o cinema.

21/04/2013

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


Diálogo imaginário entre dois motoristas num semáforo:
 
- Como você pôde gastar 300 mil Reais num automóvel?
 
- Sem pensar.
 
E naquela fração de segundo uma criança morreu de fome.

17/04/2013

PESCANDO COM PÁSSAROS



Há quem olhe e pense no "atraso". Há quem olhe a vá logo taxando de "crueldade com os animais". Há quem olhe e pense no desperdício de horas, dias, meses, anos, balançando numa estreita jangada de bambú para pegar só um punhado de peixes por dia. Há ainda quem olhe e pense na miséria de uma vida privada dos "confortos" da civilização.
 
Mas há também quem olhe e veja beleza, paz, poesia, respeito e integração à natureza numa forma equilibrada de prover-se e compartilhar o que a natureza graciosamente nos propicia sem dela extrair uma grama a mais do que o necessário.
 
A pesca com o biguá (ou cormorão) é uma prática antiga. Até os arqueólogos identificarem registros dessa prática no Perú, acreditava-se que a pesca com Biguá teria se originado na China ou no Japão entre os séculos 5 e 6 da nossa era. Talvez a prática tenha surgido espontaneamente na América do Sul.
 
Ou pode ser que tenha sido introduzida em nosso continente pelos asiáticos que migraram para cá há pelo menos 14 mil anos; o que faria da pesca com Biguá uma atividade tão antiga quanto o cultivo manual.
 
Na prática, funciona assim: enquanto o pássaro ainda está sendo treinado, o pescador prende um anel de fios de bambu no pescoço de cada biguá, parte com sua jangada ao anoitecer e se posiciona no meio do rio com uma lanterna para atrair os peixes.
 
Ao ver-se cercado pelo cardume, o pescador balança a jangada e os biguás mergulham emergindo em seguida com os peixes maiores em seus bicos, porque o anel impede que os peixes grandes sejam engulidos.
 
O pescador então manobra a jangada aproximando-se dos biguás, puxando-os em seguida pelo anel para o chão da jangada. Depois disso é só "colher" os peixes dos bicos dos pássaros.
 
Ao final da pesca, o pescador remove o anel do pescoço dos biguás e presenteia cada um com um peixe grande.
 
Com o tempo, o pássaro aprende a esperar essa recompensa e não precisa mais do anel.
 
É um sistema absolutamente sustentável, pois os biguás não podem ficar mergulhando indefinidamente, e os cestos dos pescadores não acomodam mais que alguns peixes - o necessário para o consumo próprio e venda ou escambo do pouco excedente.
 
Assim a fauna do rio Li, na China vinha se mantendo e renovando ao longo dos séculos e se não havia fartura, pelo menos não havia falta de alimentos.
 
Mas a exploração comercial praticamente acabou com esse cenário bucólico com seus grandes barcos e redes de arrastão. Os poucos pescadores que persistem na prática o fazem porque ganham mais cobrando 2 dólares para serem fotografados pelos turistas, do que os 50 centavos que conseguem na venda do peixe.
 
Em algum blog que me recuso a citar, um miliciano ambientalista em sua míope visão primeiromundista denuncia a prática como "crueldade com os animais"; como se fossem menos cruéis as redes dos imensos pesqueiros que varrem indistintamente flora e fauna dos leitos de rios, lagos e oceanos pelo mundo a fora, deixando atrás de si o rastro putrefato dos "descartes" incluindo alevinos e espécimes adultos menos comercializáveis.
 
Crueldade é extrair sem retribuir.
 
Crueldade é apropriar-se de um recurso natural, clamar direitos exclusivos e explorá-lo até a exaustão.
 
Crueldade é abastecer-se regularmente com mais do que de fato se consome enchendo os lixões deste planeta com restos não consumidos de seres outrora vivos misturados a outros resíduos formando um caldo pútrido que não só não serve nem para reaproveitamento por outras espécies; como se infiltra nas águas e envenena o solo por gerações.
 
Crueldade é pescar por esporte, não para consumo.
 
(Foto: "Pescadores com Biguá ao Anoitecer", Rio Li, Província de Guilin, China. Por Dan Ballard)

15/04/2013

NA BOA LUTA



 
Assisti na íntegra o filme/documentário ontem à noite na HBO.
 
Mais que recomendo: insisto que pessoas com corações e mentes assistam e reflitam.
 
Enquanto a mídia alardeia a sandice dos pseudo-ídolos da hora; Artistas (com A maiúsculo pelo talento e merecimento) como Harry Belafonte que a gozar sua fortuna num paraíso tropical  prefere percorrer vilas e guetos nos pontos mais remotos e esquecidos, seguem perseverando na boa luta, longe dos olhos e ouvidos de uma sociedade hipnotizada pela espetacularização da banalidade.
 
Abaixo, trecho de entrevista concedida por Harry Belafonte à HBO (tradução minha):
 
HBO - De onde vêm as sementes de seu ativismo?
 
Harry Belafonte - Meu ativismo vem do ambiente social em que nasci. Meu pai nos abandonou muito cedo. Minha mãe era uma mulher imigrante buscando a participar do sonho americano. Ela descobriu que as regras básicas para as pessoas de cor não eram iguais às regras básicas para as pessoas que vieram da Europa. Eu cresci apreciando sua capacidade de resistência e coragem. Ela sentiu que a nossa missão na vida era de levantar-nos contra a opressão onde quer que a víssemos, e nunca nos render até que tenhamos feito o que podemos mudar. Assim, em grande medida, essa foi a minha primeira inoculação, a primeira coisa que entendi.
 
Nos anos subseqüentes a assistir Hitler e a construção da máquina de guerra nazista, observando o que estava acontecendo com os judeus na Kristallnacht, a olhar para o que aconteceu com a Itália e a Etiópia e o apelo de Haile Selassie antes da Liga das Nações - todos estes acontecimentos me fascinaram. Mais tarde, fui voluntário na Segunda Guerra Mundial. Quando entrei no serviço, eu estava espantado com a diversidade da comunidade negra. Não foram apenas minhas experiências estreitas de viver no Harlem. Agora, se você fosse uma pessoa de cor, tinha que ser ou atendente ou um carregador de munições, o que a maioria das pessoas não quer ser, porque era um trabalho terrível, conduzido por oficiais racistas, fazendo coisas que eram extremamente perigosas.
 
Depois da guerra, quando as pessoas perguntavam "Onde você lutou" Eu dizia: "nós estávamos na quarta frente." E a quarta frente eram os Estados Unidos, principalmente o sul. E nesse contexto, estavamos lutando a guerra para acabar com o racismo e a supremacia branca e Hitler, e para vingar o que aconteceu com os judeus. E foi difícil para nós voltar da guerra, tendo sido vitoriosos contra todas estas opressões, apenas para descobrir que éramos submetidos às mesmas opressões das próprias fontes que lutaram na guerra. Tivemos uma escolha a fazer. Você quer transigir e entregar a eles e ser apenas um ser humano quebrado, ou você resistir e dizer, não, nós não vamos aceitar.
 
Então, qualquer coisa que resista a esse tipo de opressão, vai estar no centro de minha vida. Muitas pessoas têm me perguntado, quando é que um artista como você se tornar um ativista? E eu tenho que dizer, olhe pelo outro lado. Quando é que um ativista decide tornar-se um artista, é a melhor maneira de olhar para a viagem da minha vida. Porque foi o ativismo que me levou à arte.
 
HBO - Você produziu seus próprios filmes "independentes" em um momento em que isso era inédito em Hollywood que um artista negro o fizesse.
 
Harry Belafonte - Quando Hollywood bateu à minha porta, fez chegar uma vantagem em fazer as coisas um pouco diferente. Mas era tão paternalista e condescendente que, embora fingisse dinâmicas liberais, era apenas uma codificação. Muitos de nós foram profundamente frustrados porque não estavamos chegando às ruas com o barulho certo, com os papéis certos, para ter a oportunidade de revelar a nossa experiência humana de maneira mais profunda. Qual é o ponto em interpretar um personagem unidimensional preto? Eu sou multi-dimensional. Hollywood não permitia isso. Você não pode ser um par romântico porque para mostrar o amor e a humanidade e abraçar e cuidar revela muito sobre o fato de que você é completamente diferente do que dizem que você é. Você é um estuprador, você está preocupado com a sua sexualidade, com as drogas, por isso eram sempre estas considerações estreitas. E então eu disse, por que não tomar as rédeas nos próprios dentes? Colocar seus próprios recursos. Reunir seus amigos, reunir o seu próprio povo e mandar bala. Quando começamos a fazer isso, Hollywood começou a ceder mais. E, de repente, nessa capacidade de cineasta independente, eu superei muitas barreiras.
 
HBO - Ao mesmo tempo, você acabou entrando para a "lista negra" nos anos 50. Você vê algum paralelo entre a era McCarthy e nosso clima político de hoje?
 
Harry Belafonte - Eu não só vejo a América indo na direção de grandes semelhanças com a era McCarthy e o que aconteceu na América durante aqueles dias de crucifixão, mas eu vejo a América indo muito além. Hoje, nós temos algo que é mais terrível, escrito sob a bandeira da "segurança nacional." E os extremos dessas leis permitem que qualquer cidadão seja apreendido sem o conhecimento de ninguém, sem mandato, e mantido preso indefinidamente. O indivíduo pode desaparecer e ninguém ficar sabendo o que aconteceu com ele. Isso é um pesadelo. Essa é a base de um Estado totalitário. Tenho fé e acredito que nós possamos dar um basta nisso? Sim. Mas é muito difícil aglutinar as forças que fazem a diferença. Porque a própria força que pode fazer a diferença contra nos tornarmos um Estado totalitário é a mesma que está dividida.
 
HBO - Como você olhar para a sua vida, o que é mais importante para você?
 
Harry Belafonte - Eu acho que o que eu realmente penso é, no momento de minha morte, o que vou ter deixado para trás que tenha contribuído para instruir as gerações que vieram depois de mim, e ainda estão diante de mim, que irá ajudá-los. Quando eu tomei a decisão de investir na forma de arte a que me dediquei, eu rapidamente descobri que a minha capacidade de resistência não se restringia aos bancos, às entidades que controlavam a mídia, aqueles que decidem se sua música será ouvida ou não. O que se tornou terrivelmente importante para mim foi garantir a manutenção de uma relação direta com o meu público. Então, o meu investimento era estar em um palco onde as pessoas pudessem me ouvir. Era onde eles me ouviam no meu melhor. Se você nunca me viu ao vivo, então você nunca me viu de fato. Minhas gravações fazem certas coisas, mas não são o melhor exemplo de quem eu sou. A personificação real de quem eu sou veio da experiência do teatro. Eu disse coisas que as pessoas nunca tinham ouvido antes. E eu garanti que ao final de um show, todo mundo estivesse cantando. Todo mundo estava envolvido. Eu trabalhei pelos Direitos Humanos, trabalhei contra a pena de morte; eu trabalhei pelas pessoas que foram oprimidas e marginalizados. Eu cantei a música dos judeus, eu cantei a música dos árabes, eu cantei a música dos japoneses. Fiz questão de cantar todas essas músicas quando ia a esses países. E com isso afirmar nossa civilidade, a nossa humanidade.