22 de jun de 2008

A HISTÓRIA DAS COISAS

PARTE 1: Introdução




PARTE 2: Extração




PARTE 3: Produção




PARTE 4: Distribuição




PARTE 5: Consumo




PARTE 6: Descarte




PARTE 7: Uma Alternativa




Pra saber mais e usar a interatividade, visite o site storyofstuff.com.

21 de jun de 2008

VALORES CORPORATIVOS?!


Lendo o jornal de hoje me deparo com um artigo sobre o burnout e suas avassaladoras conseqüências na vida de milhões de pessoas.

A certa altura, deparo-me com a pérola:

O principal fator é a falta de transparência sobre os valores corporativos.


Discordo em número, gênero e grau: o lucro é o "valor" fundamental de toda e qualquer corporação. É sua razão de existir, seu objetivo, seu motor. Indivíduos não contam, e isso vale inclusive e particularmente para os empregados.

Essa tal "cultura corporativa" e a legião de pseudo-especialistas que vem invadindo a mídia e lotando anfiteatros com suas pérolas de sabedoria seria cômica se não fosse trágica.

Enquanto isso, você folheia o jornal de sábado a procura do novo carro, do novo apartamento, da nova tv a plasma que pretensamente servirá de compensação para tudo o que falta em sua vida; mas que de fato só serve pra prolongar sua escravidão ao sistema. Acorde para o que realmente importa enquanto importa realmente, porque família, amigos e amores já entraram no mercado das commodities.

No mundo em que vivemos, a liberdade foi substituída pela opção de consumo e a realização pessoal pela quantidade de consumo.

LIVROS, PARA QUE LÊ-LOS


Como não me furto à polêmica, vou tratar hoje de um assunto delicado. Delicado, porque escrevo num país de iliteratos onde a maçiça maioria sequer concluiu a leitura de uma única obra significativa (eu disse significativa: auto-ajuda e pseudo-literatura não contam). Mas, enfim, como país de contrastes que somos, na outra ponta desse iceberg tem a minoria que lê o suficiente para sustentar grandes redes de livrarias e editoras.

Pra não fugir à regra do argumento de autoridade (essencial para a sobrevivência intelectual nos meios "cultos"), vou citar Schopenhauer em dois momentos de peculiar inspiração (os extratos são do livro "A Arte de Escrever", no caítulo "Sobre a leitura e os livros"):


Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante refaz com pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram o que resta?(...)

Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos.


A leitura não se resume a canibalizar pensamentos alheios passando vorazmente de um a outro cardápio ao sabor das rodas de conversa e das indicações da mídia. A leitura que realmente vale é a que vem acompanhada da reflexão, do questionamento, da crítica, da elaboração.

Conheço gente capaz de memorizar parágrafos, capítulos inteiros; mas absolutamente incapaz da menor elaboração desses conteúdos. São analfabetos intelectuais, que passam a vida afirmando "eu li", citando em seguida essa ou aquela passagem (usualmente as mais obscuras e floreadas onde nitidamente sequer o autor tinha noção clara do que se referia). Tais tipos abundam no meio acadêmico, nas câmaras de livro e nas comissões de cultura onde sua vaidade pode ser melhor apreciada pelos iguais.


Seria bom comprar livros se fosse possível comprar, junto com eles, o tempo para lê-los, mas é comum confundir a compra dos livros com a assimilação de seu conteúdo.


O tipo mais patético é o colecionador (referido no exemplo 2 de Schopenhauer), que entope as paredes da casa com centenas, milhares de volumes, como se cultura se absorvesse por osmose. É o analfabeto ostensivo: adora dizer "eu tenho este livro".

A erudição é um processo de aprendizado como outro qualquer. É preciso passar por essas etapas e amadurecer. A verdadeira erudição não se mede pela quantidade, mas pela qualidade. A qualidade do que se escolheu ler e a qualidade da elaboração que acompanhou essa leitura.

Pense nisso. E da próxima vez que abrir um livro (um livro de verdade, não auto-ajuda, pseudo-literatura técnico-corporativa ou o título da moda), vá lendo aos poucos, saboreando como se fosse um petit-four e pense, pense muito sobre o que está lendo. Por quê o autor disse isso ou aquilo? Onde pára a argumentação válida e começa a falácia? Por quê tal personagem age assim ou assado? O que há por trás da trama? Qual a real intenção daquela pessoa ao escrever aquela obra específica?

Você vai se desapontar com muitos autores carimbados da atualidade, mas, em contrapartida, vai começar a entender melhor as pessoas e a vida ao seu redor.

10 de jun de 2008

POR QUÊ SÓ OS PINGUINS?

A imprensa anda fazendo auê da quantidade de camisinhas enviadas à equipe de pesquisas norte-americana na Antártica: 16.500 pra 125 pessoas; sendo que o estoque deve durar até pelo menos 20 de agosto (que é quando o inverno deve ceder um pouco, permitindo o pouso de novos vôos com suprimentos).

Que jornalista não entende nada de matemática, ninguém precisa dizer (a maioria já entra no curso pra fugir da matemática!), mas todo esse alarde é mero exagero, senão vejamos:

16.500 camisinhas
125 pessoas
70 dias

A média é 1,88 camisinhas/dia por cabeça (com o pedrão do trocadilho); o que não é nenhum absurdo, já que antes de mais nada, há o risco das camisinhas furadas (risco que aumenta exponencialmente, se levarmos em conta que se trata de aquisição licitada pelo governo americano); e depois, nem TV a cabo pega por lá, e convenhamos que com temperaturas externas na casa dos 30° negativos e rajagas de 100km/h nem Einstein resistiria a ficar entre quatro paredes, de preferência aconchegado num cobertor de orelhas.

DOIS PESOS



Em Ontario, na província do Québec, os donos de quiosques, mercadinhos e lojas de conveniência agora têm ordem de esconder os maços de cigarro dos olhos do consumidor, armazenando-os dentro de gavetas em compartimentos fechados.

Bebidas alcoólicas de todos os teores e revistas pornográficas - incluindo as "barra pesada" não sofrem esse tipo de restrição.

8 de jun de 2008

ENQUANTO ISSO, NA INGLATERRA...

Que inglês é meio maluco, ninguém duvida, mas convenhamos que em plena crise de alimentos o objeto do esportezinho acima (um queijo de verdade e de bom tamanho) podia ser reconsiderado.

A CULPA É DOS DONOS





Neste final de semana, em ocasiões distintas, três idosos foram mortos por pitbulls no Brasil. Dos três, duas senhoras eram conhecidas dos animais: uma era vizinha e a outra a própria avó do dono.

Novamente ergue-se o clamor pelo extermínio de uma raça inteira como se os cães fossem os culpados.

Não são.

O que não aparece nunca na mídia são as condições a que muitos desses "assassinos" são submetidos por seus donos, ou quantos morrem vítimas de maus tratos e ferimentos em rinhas de cães espalhadas pelo país a fora. Não se cria um cão para rinhas mantendo-o na sala de estar com a família a assistir televisão. Não é culpa da raça pitbull carregar o estigma da violência e ser a eleita de 9 entre 10 mentecaptos antissociais que usam o cão para sublimar sua impotência.

Antes, e acima de tudo, o comportamento adulto de um cão é conseqüência direta da criação que teve, de como e o quê seu dono ensinou. Como selvagem que é (e sempre permanecerá, não importa o quanto o "domestiquemos"), o cão não vem equipado de fábrica com mecanismos de repressão social outros que os ditados pelo seu instinto de animal de matilha. Mas ele aprende, e aprende muito mais de nosso inconsciente do que imaginamos.

Se quero conhecer uma pessoa, observo seu cão. Não a raça desse cão, mas seu caráter, sua personalidade, a maneira como acolhe um estranho. Não falha nunca.

Odeie as pessoas, encha-se de preconceitos e suspeitas com estranhos, viva temeroso que alguém irá tentar roubar seu precioso quinhão; então prenda um cão desde filhote numa corrente no fundo do pátio com pouco ou nenhum contato com pessoas, incentive sua agressividade, puna-o com violência e racione sua alimentação.

Com qualquer ingrediente dessa receita, você será bem sucedido em transformar um chihuahua numa máquina assassina.


A SABEDORIA DOS BODES



Uma dica pra governadora: às vezes se fazer de morto é a melhor solução. Assista ao vídeo, e vá praticando... quem sabe funciona também com CPI?

PATACOADA

Não tem outro adjetivo que descreva tão bem as peripécias da placa preta n°001 na manhã de ontem pra burlar os carros da imprensa pelas ruas de Porto Alegre.

Algum barnabé arvorado a RP devia alertar o governo do estado que fica difícil manter a elegância e a compostura da dra. Yeda furando sinal vermelho em plena manhã de sábado na Casemiro de Abreu. Por muito pouco a comitiva não acresceu um acidente de trânsito à aparentemente interminável lista de tropeços da atual administração.

7 de jun de 2008

E AGORA?


Uma indignidade.

Assim refere-se nossa governadora à iniciativa de seu vice (aquele baixinho careca com quem aparecia toda sorridente nos cartazes de campanha) de gravar conversa com seu chefe de gabinete.

Uma indignidade.

Apesar de tantos trechos inaudíveis, fica clara no entanto a mensagem do chefe de gabinete: desde que o mundo é mundo neste Estado se loteiam cargos e autarquias para a locupletação de "políticos" e "partidos".

Que a gravação do senhor Feijó sirva para levantar o véu da hipocrisia e do proselitismo da superioridade gaudéria, e nossas vestais deixem de desfilar em Brasília torcendo o nariz para o resto do país.

Não somos melhores do que o Piauí, o Acre ou a Paraíba. Nosso santo gaudério, tão efusivamente louvado em prosa e verso tem pés de barro.

Falam no impeachment da governadora. Ora, convenhamos, não é dessa, nem das administrações recentes o privilégio da engenhosa criação da máfia que assalta nossos bolsos de contribuintes enquanto escarnece de nossa vaidade regional. Yeda, como Rigotto, como Olívio, como Meneghetti, Peracchi, Triches, Guazzelli, Amaral, Jair Soares, Simon, Collares, Antônio Brito; para citar tão somente os que assentaram ao trono do Piratini desde a ditadura; todos, sem excessão, tiveram que lidar com essa rede subterrãnea, essa dinastia do crime institucionalizado e enraizado nos porões da sede de nosso governo estadual. O máximo que conseguiram foi reduzir os proventos dessa corja. Mas, em nossa história, não houve político capaz de cortar esse mal pela raiz. Pergunte a qualquer um deles, pergunte se já durante a campanha não foi assediado pelos patrões do CTC (Centro de Tradições da Corrupção).

Busatto não inventou essa roda. Tampouco é ele o motor. Busatto é apenas uma das centenas de aros que sustentam essa máquina, a mesma que investe milhões em propaganda para alardear o dito "orgulho de ser gaúcho".

É hora de aceitarmos o fato de que não foi por ter nascido gaúcho que Getúlio Vargas foi o homem que foi. Tampouco o foram Brizola, Bento Gonçalves e os vultos do Decênio Heróico. Sua grandeza não veio do solo onde nasceram, assim como o fato de termos nascido gaúchos não faz de nós seus herdeiros naturais, bastiões da honra e da virtude, exemplo para o resto do país.

Urge que todo gaúcho páre e reflita com profundidade sobre a distância entre os valores que apregoamos e os que praticamos como sociedade. Somos autofágicos e insensíveis às questões sociais, individualistas para além do egoísmo. Somos, no ranking nacional, sempre o último estado a se mobilizar e manifestar qualquer forma de interesse por soluções práticas aos problemas que afligem o país. Do alto de nosso pedestal, nos arvoramos a advogados da "causa maior", como se a retórica substituísse a ação; e nesse discurso vazio e hipócrita encontramos consolo para o que resta de nossas consciências distorcidas pela mitologia de um passado restrito às churrascarias e CTG's.

Essas palavras não me saem sem profunda tristeza, pois tanto quanto você e milhões de outros gaúchos, meus olhos se enchem de lágrimas ao recitar o hino farroupilha. Minha tristeza, porém, vem da constatação de que poderíamos, de fato, ter servido "de modelo à toda a Terra", poderíamos ter aqui criado um exemplo de sociedade, mas perdemos o bonde da história para o apelo consumista das coberturas e carros de luxo, das viagens a Miami e maravilhas da eletrônica; do imediatismo do primeiro milhão antes dos 40 anos.

Fico com as palavras de Getúlio Vargas. Peço que leiam e reflitam, que transmitam a seus filhos. Talvez a semente do mitológico espírito farrapo visceje em algum lugar do futuro:

(...) Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

6 de jun de 2008

OS SETE PORQUINHOS



Essa vem de Santa Catarina, pra provar certas as más línguas que dizem que por lá acontece de tudo.

O PORQUINHO TRAPALHÃO



Quem passava pela av. João Pessoa ontem pela manhã começou o dia do jeito que deve ser: com boas gargalhadas. O culpado: um portentoso suíno em fuga espetacular.

4 de jun de 2008

EXÉRCITO SILENCIOSO



Tão logo cumpriram a missão de votar em mais um "referendo" (bastante oportuno, por sinal), centenas de milhares de eleitores birmaneses passaram a ser expulsos dos acampamentos provisórios onde ainda podiam manter a ilusão de que algum dia eventualmente alguma ajuda os alcançaria.

A imensa maioria não tem sequer para onde voltar: suas aldeias deixaram de existir.

No caminho, vencendo os obstáculos nas degradadas rotas (que outrora foram estradas), a esperança se materializa nas inconfundíveis túnicas vermelhas. São eles, os monges (sempre eles!) que tomam a si a responsabilidade que caberia ao governo eleito e sustentado pela população.

A eles, e não ao governo, acorrem os ricos e remediados de Mianmar para fazer suas doações aos flagelados. A eles, e não ao governo, acorrem as legiões de famintos em busca de um pedaço de pão, um punhado de arroz, um trapo para se cobrir.

A usurpadora junta militar que provisoriamente se arvora ao poder perdeu o bonde da história e o tempo há de cobrar um preço alto, porque ao sentimento de traição segue-se a revolta e tão logo recuperem suas razões para viver, as legiões de flagelados hão de reverter a marcha, retornando às cidades e cobrando dos tiranos suas vidas devastadas com juros e correção monetária.

Ao seu lado, como sempre, estarão os monges.

O MUNDO EM QUE VIVEMOS



Se traduz em:


Clique nas imagens para ampliar, observe e leia a legendas; então me diga:

Preciso explicar porque capitalismo com igualdade de oportunidades é uma equação impossível?

QUANDO O FUTEBOL VIRA DOENÇA


O que os estádios estão ensinando às crianças?

Ódio, segregação, discriminação.

Não sou contra torcidas e torcedores. Em geral a maioria das pessoas vinga reter algum verniz de civilização mesmo quando seu time é roubado flagrante e vergonhosamente.

Infelizmente, no entanto, é crescente (alarmantemente crescente) o número de indivíduos nos quais a sociedade ao que parece falhou estrondosamente em imprimir um mínimo de civilidade. E é justamente no futebol que essas bestas encontram justificativa e oportunidade plenas para deixar aflorar seus instintos mais primitivos.

"A polêmica faz bem ao espetáculo". Qualquer dirigente sabe bem na teoria e na prática. Geralmente, a polêmica faz bem às finanças do clube, aumentando a renda das partidas e motivando torcedores a comprar cada vez mais camisetas, bonés, cuecas, toalhas, canecas, chaveiros e toda a sorte de quinquilharias com as quais os clubes complementam suas já milionárias receitas.

Mas a polêmica também acirra os ânimos e gera atritos desnecessários, transformando vizinhos e colegas de trabalho em arqui-inimigos da noite para o dia. É a gota que faltava, se a isso se acrescenta o simples fato de que é da natureza humana perder a capacidade de discernimento e a noção de individualidade quando vivenciando o êxtase da fusão no "grupo" - essa entidade maior cuja identidade é definida por oposição a outro grupo.

Desde tempos imemoriais líderes locais têm usado as guerras como forma de pacificação dos conflitos internos. Nações se ergueram e se sustentam até hoje com base nesse princípio. Quer prova maior que o fenômeno nazista? Se deseja algo mais "atual", repare na freqüência com que a Casa Branca recorre a um bode espiatório lançando-se em guerras e empreitadas suicidas pelo mundo a fora.

O "grupo" é a tradução prática da metáfora do lobisomem, na qual independente de sua "vontade" ou natural inclinação à prática do bem e da sociabilidade o indivíduo se acha presa de uma maldição que à visão dalua cheia, oblitera sua razão transformando-o numa besta sedenta de sangue.

Já contamos às dezenas os assassinatos motivados anualmente por rixas futebolísticas. Isso sem contar as batalhas campais e depredações, ou os apupos que já começam na escola ainda antes da alfabetização.

Não bastasse isso, via de regra as ditas "torcidas organizadas" constituem celeiros para a formação e disseminação de grupos que pregam o ódio social. Expressões como "nação", "raça", "força" são comuns em faixas e bandeiras estendidas em estádios do Oiapoque ao Chuí. Da pregação à prática é um passo.

Um pequeno passo que nos lança a todos, como sociedade, na vala comum da barbárie.

Por mais que tenha avançado, a tecnologia por si não vai nos redimir.

Pelo contrário: tem servido como arma e munição para gerar mais ódio e barbárie - que o digam os sites de relacionamento e listas de discussão tão populares na internet.

3 de jun de 2008

O BURACO É MAIS EMBAIXO



A fome também chegou ao Egito e, ao que parece, para ficar.

"Eu costumava comer carne uma vez por mês, mas ainda não comi este ano", diz Nura Ahmed em entrevista à BBC.

De 1996 a 2006, a fome no mundo se alastrou numa média de 4 milhões de novos famintos ao ano. Com a atual "crise dos alimentos" os números estão aumentando dramaticamente. Ainda não dispomos de dados conclusivos, mas com um aumento médio de 20% nos preços dos alimentos básicos, dá pra ter uma idéia do impacto sobre os bilhões de seres humanos que mal ameaçavam deixar a linha da pobreza absoluta se vêem novamente lançados à miséria total.

Para uma análise mais profunda do problema, sugiro a leitura do artigo The New Face of Hunger.

Enquanto isso, no Norte Maravilha, 25,9 milhões de toneladas de alimentos são jogadas no lixo anualmente (isso sem contar os 27 milhões gerados pelos supermercados, restaurantes e lojas de conveniência). Segundo estudos, isso representa quase 50% dos alimentos produzidos naquele país. Uma família americana joga ao lixo em média 590 dólares de alimentos todo o ano. Grande parte desse lixo é composta por alimentos ainda dentro de seu prazo de validade e nunca abertos. Se apenas 5% dos restos das mesas dos americanos fossem recuperados, a fome de 4 milhões de pessoas seria saciada.

Mas não podemos culpar unicamente o desperdício das pessoas do primeiro mundo. Conforme Jim Goodman, um fazendeiro de Wiscosin que tem rodado o mundo fazendo palestras e tentando organizar e promover manifestações de pequenos fazendeiros contra os conglomerados da agroindústria; o buraco é bem mais embaixo:

"Então, eles (os governos) finalmente entenderam, depois de todos esses anos empurrando a globalização e sementes geneticamente modificadas, que ao invés de alimentar o mundo nós criamos um sistema de alimentação que deixa mais pessoas com fome. Se tivessem ouvido os fazendeiros ao invés das corporações, saberiam que isso iria acontecer."

Conforme John Nichols em artigo publicado no jornal The Nation, "Para além das respostas humanitárias, a cura para o mal que aflige o sistema global de alimentação - e uma instável agroeconomia nos EUA - é parar com a pantomima da globalização e manipulação genética. Tal caminho deixou 37 países em crise alimentar enquanto o gigante internacional de grãos Cargill colheu um aumento de 86% em seus lucros e a Monsanto ceifa vendas recordes de suas sementes e herbicidas. Por anos, as corporações têm prometido aos fazendeiros que problemas seriam solucionados por acordos de mercado e tecnologia - especialmente sementes geneticamente modificadas, que agora conforme sugere estudo da Universidade do Kansas, reduzem a produção de alimentos; e, segundo a IAAST não irão acabar com a fome global. O 'mercado', pelo menos como definido pelo agrobusiness, não está funcionando. Nós 'temos uma horda de negociadores, especuladores e bandidos financeiros que se tornaram selvagens e construiram um mundo de desigualdade e horror', diz Jen Ziegler, advogado do Direto à Comida da ONU. Mas tente dizer isso à administração Bush ou ao presidente do Banco Mundial (e ex representante de negócios da Casa Branca) Robert Zoellick, que anda ocupado explorando a tragédia para promover a liberalização do comércio."

E encerra:

"O Congresso (americano) devia também abraçar políticas de comércio e desenvolvimento que ajudem os países em desenvolvimento a regular mercados com vistas a alimentar os famintos mais do que os lucros das corporações. Este princípio, eu penso, conhecido como "soberania alimentar" vê batalhadores fazendeiros e pessoas famintas e diz, como observa Anuradha Mittal, do Oakland Institute, que é hora de "parar de venerar o chamado dourado do dito mercado livre e abraçar o princípio de que cada país e cada povo tem o direito à alimentação a preços acessíveis." Como diz Mittal, "quando o mercado os priva disso, é o mercado que deve dar."

2 de jun de 2008

PARTICIPE!