25 de nov de 2008

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA TAL DA "CRISE"



Já que não se fala mais em outra coisa, aí vai:

Espero que essa tal "crise mundial" sirva de lição, porque basear economias reais num jogo de Monopoly não podia nunca ter dado em outra coisa.

E sigo cantando com o Gil:

Ô-u-ô, u-ô
Gente estúpida
Ô-u-ô, u-ô
Gente hipócrita

23 de nov de 2008

A BENGALADA


Estava lá eu, um tanto frustrada porque a máquina do meu banco não tinha dinheiro, esperando enquanto minha mãe imprimia alguns extratos no caixa automático.

Como soe às engenhocas modernas, a traquitanda cuspiu uma folha como se estivesse em rigorosos treinos para as olimpíadas dos caixas eletrônicos. Prontamente me abaixei e recolhi o papel, reparando no olhar de reprovação da senhora que aguardava na fila apoiada em sua bengala.

Como boa filha (ou na ilusão de que é assim que uma boa filha deve proceder), tratei logo de guardar o extrato na bolsa de minha mãe, encarapitada sobre sacolas de compras no carrinho do supermercado. Nesse instante de distração em meu zelo e guarda, a máquina ejetou outra folhinha de extrato. Emaranhada pelas sacolas, bolsa, carteira, óculos, celular (desligado, como sempre), extrato, e um monte de coisas que cabem numa bolsinha tão pequena; assisti impotente minha mãe se abaixando toda guenza com a ajuda da bengala pra juntar o raio do papelzinho.

- Podias ter esperado, que eu fazia isso pra ti. - protestei do alto de minha autoridade filial.

- Por que, se sou bem capaz de me abaixar? - retrucou minha mãe com um sorriso divertido (é assim que ela costuma indicar que estamos avançando o sinal).

Abri a boca pra argumentar, mas antes que me saísse um "ai", a senhora que aguardava na fila apoiada em sua bengala desferiu:

- Quando é que vocês vão entender que nós temos que nos abaixar? Que o fato de estarmos velhas não significa que estamos incapacitadas?

Gente, a coisa virou um tandéu, com a minha mãe fazendo eco e acrescentado queixas pra divertimento da fila que se estendia já até a porta do subsolo do supermercado. Não precisa dizer que pela minha cara passaram todas as nuances do arco-íris.

Murchei. Fui saindo de fininho com a rabo entre as pernas. Se ainda pudesse, minha mãe teria saído aos pulos e gritos de give me ten!, tamanho era o júbilo pela batalha recém vencida.

- Tu me xingou... - protestei num fio de voz, ainda zonza daquela saraivada toda.

Ela se limitou a sorrir, e os olhos de um verde que só ela tem, cintilaram marotos. Meu coração chegou a tropeçar numa batida: aquele olhar era muito, mas muito mais jovem que o meu.

De fato, por algum tempo ainda até que a poeira da bengalada assentasse, posso jurar que quem sentava ao meu lado naquele carro não tinha mais que uns 18 ou 20 anos. Foi um momento tão bonito, mas tão bonito, que sinceramente não me importo nem um pouco se o pessoal da fila saiu de lá rindo da minha cara.

É claro que também fiquei chateada. Mas não pela saraivada. A verdade é que excesso de zelo faz tanto mal quanto a sua ausência. Fiquei chateada, porque me flagrei falhando no respeito que prezo acima de tudo. Caí na armadilha, entende?

É que ao vê-los tão frágeis, ao mesmo tempo que os sabemos tão caros ao nosso afeto é muito, mas muito difícil lembrar sempre que por trás daquele corpo alquebrado, daqueles passos hesitantes; persiste uma mente perfeitamente lúcida, lutando contra as limitações impostas pela idade.

Se é verdade que lutar contra o tempo é uma batalha perdida, também é verdade que todo o músculo que não é usado se atrofia; e isso vale pra todo mundo. Portanto, certas estavam minha mãe e sua fervorosa aliada.

A bengalada atingiu em cheio a minha soberba.

Soberba, sim. De fato, é com soberba que vejo a imensa maioria dos filhos se dirigirem aos pais, do "alto" de sua juventude e "infalibilidade", totalmente esquecidos que juventude é circunstancial e infalibilidade não passa de uma ilusão.

Não raro percorrendo as ruas ou os corredores do supermercado, me deparo com filhos e filhas tratando a gritos seus velhos progenitores. Dá vontade de interferir e meter a boca. Não raro, em rodas de conversa, ou falando com gente por aqui e por ali, flagro filhos opinando sobre o que seria melhor para a vida de seus pais, como se seu juízo fosse privilegiado. Mas que juízo, cara-pálida?!

Nosso "juízo" ainda é geralmente parcial, relativo; pintado nas cores de nossa inexperiência, de nossas expectativas: vivemos ainda agarrados ao vício pueril de pintar a realidade nas cores de nossas fantasias sobre o que deveria ser, de esperar das pessoas que sejam e ajam como quem as imaginamos ser, porque nunca ou raramente nos damos ao trabalho de ouvir e conhecer mesmo quem está mais próximo de nós, particularmente os nossos pais.

Pior, nos dias de hoje, onde todo mundo trabalha e toca sua vida longe dos pais, esse "juízo" costuma servir mais aos interesses e comodidade próprios do que a qualquer outra coisa. Como é que podemos saber o que é melhor pra nossos pais (e, por extensão, pra qualquer outra pessoa incluindo nossos filhos), se mal e porcamente sabemos o que é melhor para nós mesmos?

Pra saber o que é melhor pra nós, primeiro temos que nos conhecer, e se isso já é complicado e não raro se passa uma vida inteira sem saber; o que dizer de nossos pais? O quanto deles realmente conhecemos?

Você, por acaso, sabe o que sua mãe ou pai idoso mais queria da vida quando tinha 16 anos? Que sonhos acalentava? Quais seus filmes, seus livros, suas músicas prediletos? Que escolhas fez na vida, com quais desafios se deparou, como e quando os superou? Que interesses na vida acalenta ainda hoje, guardadinhos lá bem fundo no baú?

Provavelmente, se sentar com seu pai ou com sua mãe por mais de 15 minutos e longe da zoeira dos almoços de família; você vai descobrir uma pessoa totalmente diferente daquela a quem se acostumou pela superficialidade que caracteriza o convívio diário das famílias, particularmente desde que a tv se tornou o centro das atenções, calando a tudo e a todos.

Me esforço pra ser uma boa filha, que no meu entender é uma equação bem simples: aplicar a mesma compreensão e respeito incondicionais que recebi da infância à maturidade. Nunca, ao longo de todas as fases, dramas, tragédias, alegrias e, particularmente, no curso dos erros que cometi (e olha que foram muitos), ouvi de meus pais mais do que "o que devias fazer é...". No máximo uma daquelas perguntas que enfiam a pulga bem na preguinha atrás da orelha e fazem a gente parar e pensar um bocado; ou um "eu acho que...".

Reparo à minha volta que há muito mais facilidade entre as pessoas da minha geração em aplicar essa lógica a seus filhos do que a seus próprios pais.

É claro que é difícil resistir. Velho muitas vezes tem aquela coisa, aquela casmurrice que faz a gente querer saltar das tamancas e rodar a baiana; porque eles insistem em coisas que na nossa ótica parecem totalmente ilógicas e irracionais. Meu tio, por exemplo, prefere não escutar a usar os aparelhos de surdez, porque o troço apita e incomoda. A avó de uma amiga minha, mesmo aos 86 anos insistia em caminhar todo o dia sozinha até o supermercado, arriscando o pescoço pra atravessar a Protásio, uma das ruas mais movimentadas aqui de POA.

É um equilíbrio muito delicado, principalmente quando envolve riscos, e confesso que vê-la se abaixando com tanta dificuldade só pra pegar um extrato do chão me apertou tanto o coração que lágrimas me vieram aos olhos. Mas é essa a realidade dela, é esse o corpo no qual habita uma mente perfeitamente lúcida, brilhante até; e se não fizer esse esforço sempre que necessário, acabará perdendo mais este movimento, acrescentando mais uma restrição à longa lista com a qual já convive.

Canso de ver pessoas de idade tratadas como crianças, canso de ver filhos e filhas discorrendo a outras pessoas sobre as mazelas de seus pais e mães na cara deles, na terceira pessoa, como se não estivessem lá. Canso de ver filhos e filhas criticando a casmurrice de seus pais, sua teimosia em rejeitar o "lógico", o "prático", o "funcional"; teimando em seus "velhos" hábitos como morar onde gostam, dirigir nesse trânsito louco, irem sózinhos às compras; tomarem conta do próprio nariz.

Mas não é o que fizeram pela vida a fora?

Ao contrário do que essa nossa sociedade apregoa, a velhice não é uma doença. É uma fase da vida atualmente menos compreendida e respeitada do que a infância.

Na verdade, à excessão de processos degenerativos como o Alzheimer, a velhice só impõe limitações físicas. De resto, a mente segue lúcida e atenta do jeito que foi pela vida a fora. As emoções afloram mais facilmente, é verdade, mas isso é mera conseqüência da mudança na maneira de se encarar a vida quando sua finitude se torna presente do que de qualquer outra coisa.

Reparo à minha volta nesse exército de pais dando mais ouvidos às turrices de seus filhos pequenos do que à experiência de seus próprios pais, e confesso que isso me preocupa: um povo que negligencia sua história está fadado a repetir os mesmos erros do passado. E é exatamente isso que está acontecendo: por desprezarmos a experiência de vida dos mais velhos, estamos regredindo como sociedade, nos encaminhando a largos passos a um estágio tribal high-tech.

5 de nov de 2008

ONDE O SONHO COMEÇOU


Nem em seus mais loucos devaneios a adorável tia da foto jamais ousara imaginar que um dia estaria de pé naquela praça, cercada por milhares de pessoas, festejando a eleição de um homem de cor para o cargo mais poderoso dos Estados Unidos e, por consequência, do mundo. Isso, porque ela estava lá quando negro só sentava no banco de trás do ônibus, quando negro baixava a cabeça e repetia "sim, senhor" porque essa era a vida do negro: limpar a sujeira do branco e ainda mostrar gratidão pela gorjeta. Essa era a vida do negro, e qualquer tentativa de mudar essa realidade, era subversão.

Em dezembro de 1955 (pasme), a costureira negra Rosa Parks (a “Mãe dos Direitos Civis”) entrou num ônibus de volta para casa após um dia de trabalho e, estafada, sentou-se nos bancos da frente do ônibus - local proibido aos negros pelas leis segregacionistas do estado. Intimada a dar seu lugar a um passageiro branco e sentar no fundo do veículo, recusou-se. Foi presa, julgada e condenada.

Revoltada, a comunidade negra de Montgomery promoveu um boicote aos transportes públicos da cidade. O protesto durou 382 dias, e com o sistema público de transportes à beira da falência, a prefeitura teve que capitular, extinguindo a lei que sustentava o apartheid nos ônibus da cidade.

Em 1957, nove estudantes negros conseguiram nas cortes federais o direito de estudarem no Ginásio Central de Little Rock, no Arkansas. No primeiro dia de aula, sob os apupos da comunidade local, foram impedidos de entrar nas dependências do ginásio pela guarda estadual enviada pelo governador. Foi precisa a intervenção federal, com o envio de pára-quedistas para garantir o acesso dos garotos à escola. Ao final do ano letivo, a comunidade de Little Rock preferiu fechar aquela instituição de ensino a permitir o ingresso de mais alunos negros em suas dependências.

Em 1961, estudantes negros e brancos promoveram um protesto ocupando juntos locais onde não era permitido o ingresso de pessoas de cor.

Em 1962, a "insistência" de James Meredith em assistir às aulas a que tinha direito na Universidade do Mississipi gerou uma onda crescente de violência, culminando com a morte de duas pessoas e ferimentos à bala em 28 agentes federais e mais de 160 feridos entre a população.

Em agosto de 1963, Martin Luther King comandou a histórica marcha sobre Washington. Foi a maior aglomeração pacífica realizada nos Estados Unidos com propósitos de integração racial, direito de moradia digna, pleno emprego, direito ao voto e educação integrada.

Os eventos de 1964, que culminaram com a promulgação por Lyndon Johnson da Lei dos Direitos Civis, são conhecidos como "MIssissipi em Chamas" (relatados por Alan Parker no filme omônimo, que recomendo). No mesmo ano, Martin Luther King foi agraciado com o Premio Nobel da Paz.

Ainda assim, como nos Estados Unidos cada Estado tem plena autonomia legislativa, a Lei dos Direitos Civis não entrou em prática em todo o país. Em 1965, os negros do Alabama tiveram suas inscrições como votantes rejeitadas pelo Estado. Martin Luther King foi ao Alabama. Ele e centenas de manifestantes foram presos, mas as manifestações continuaram e acabaram em violência por toda a cidade, com a morte de uma manifestante pela polícia. Nos dias que se seguiram, choques entre civis brancos locais, policiais a cavalo e manifestantes negros resultaram em tumultos generalizados com mortos e feridos, transmitidos pela televisão para todo o país. As cenas causaram a mesma indignação dos fatos ocorridos no Mississipi no ano anterior e permitiram ao Presidente Johnson conseguir aprovar junto ao Congresso a Lei do Direito de Voto em 1965. Esta decisão provocou a famosa lamentação de Lyndon Johnson de que “com essa assinatura acabo de perder os votos do sul na próxima eleição”.

O direito ao voto negro mudou para sempre a face política do sul dos EUA, fazendo com que, em 1966, o número de negros eleitos para cargos públicos no Mississipi, o mais racista dos estados sulistas, fosse maior do que em qualquer outro estado do país. Em 1965, pouco mais de 100 negros foram eleitos para mandatos públicos nos EUA. Hoje, os agora chamados afro-americanos são mais de 8.000, a maioria em estados do sul.

Portanto, foi só a partir de 1966, 11 anos depois da "insurreição" de Rosa Parks, que os negros começaram a poder votar nos Estados Unidos.


(Rosa Parks)


Desde então, muitas mudanças ocorreram. Aos poucos, pessoas de cor passaram a ocupar cargos cada vez mais relevantes na vida pública norte-americana: deputados, prefeitos, governadores, senadores, secretários de estado, ministros... mas daí à presidência da república aparentemente era sonhar alto demais. Até mesmo porque, no dia a dia, para a imensa maioria dos negros norte-americanos nos guetos e currais do Alabama a Chicago, pouco ou nada mudou desde a abolição.

A segregação racial ainda é uma constante e violenta realidade na América. Como em poucos outros lugares do mundo, o ódio racial lá se faz presente e é parte do cotidiano de negros e brancos.

Se, por um lado, a eleição de Barak Obama, um mulato cujo pai além de negro é muçulmano aponta para um amadurecimento da sociedade norte-americana; por outro, podem ter certeza, há de acirrar o atrito. As novas gerações que se auto-denominam "afro-descendentes" por incorporarem elas próprias o segregacionismo, não têm mais a perseverança e, porque não dizer, a apatia de seus progenitores. Do outro lado, por todos os rincões do país, pipocam legiões de rednecks armados até os dentes, filhos, netos e bisnetos dos mesmos rednecks que ainda não se conformaram com a abolição, quanto mais dizer com a integração dos negros à sociedade. Se vinham proliferando há decadas, alimentadas por esse ódio, tenha certeza que agora elas irão explodir, porque para o redneck da gema a idéia de um presidente "de cor" é simplesmente inadmissível.

Barak Obama terá muito trabalho pra arrumar a casa: crise financeira, Oriente Médio... Mas pior que tudo isso são os inimigos em seu próprio território. E temo por isso.

Fico com o histórico discurso de Martin Luther King e a lembrança de que nem o Nobel da Paz impediu que em abril de 1968 ele fosse assassinado em Memphis, Tenessee, por um branco que havia escapado da prisão:

Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.

Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.

Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.

Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.

Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.

Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que pensam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação voltar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Ainda mais uma vez nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos desconfiar de todas as pessoas brancas, de muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, pois entenderam que o destino deles está ligado ao nosso destino. Eles entenderam que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar sós.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há quem pergunte aos devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não puderem ter hospedagem nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade deixou marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira essa situação pode e será mudada. Não se deixem cair no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos essas verdades e elas serão claras para todos: que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão sentar juntos à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender a liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livres. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitirmos ao sino da liberdade soar, quando nós deixarmos que ecoe em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade; nós poderemos vislumbrar o dia em que todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

"Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus todo-poderoso: nós somos livres afinal."


Martin Luther King, 28 de agosto de 1963.