16 de jan de 2008

FALANDO SÉRIO


Ontem ouvi no rádio que uma garota de 14 anos havia sido morta acidentalmente (versão oficial)pelo "namorado" de trinta e tantos anos. Em 2007 outra garota de 14 anos morreu tragicamente aqui em POA ao lado do "namorado" de 30 e tantos anos - nesse caso, até onde eu sei, a polícia acabou indiciando o próprio não lembro se por dolo ou culpa.

Não vou aqui entrar no objeto das investigações: no meu entender, a ocorrência policial se deu já bem antes desses trágicos desfechos, e, pior, com a conivência de pais e familiares que negligenciaram seus deveres de tutela.

Quando se fala em pedofilia, a sociedade imediatamente associa a prática a algo distante, a uma submundo remoto onde pervertidos anônimos satisfazem sua mórbida lascívia comprando favores de crianças menos favorecidas ou esclarecidas. Revolta, indignação, repúdio, asco... são inúmeras as palavras que descrevem a reação das pessoas a essa prática.

No entanto, talvez por esse romantismo que contagia toda a nação, a relação "amorosa" entre um homem maduro e uma menina que mal largou as bonecas é vista com passiva complacência: o "amor" justifica tudo. O "amor" pode tudo.

Mas de que "amor" estamos falando?

Alguém em sã consciência acredita que entre uma criança e um adulto pode haver amor diferente do amor entre pais e filhos, entre avôs e netos, entre tios e sobrinhos? Que uma criança de 14 anos é capaz de corresponder à complexidade psíquica e emocional de uma pessoa adulta?

Não, não estamos falando de "amor": estamos falando de PEDOFILIA.

Estamos falando na conseqüência da sexualização precoce que aflige a esmagadora maioria das crianças - particularmente meninas - no Brasil.

Estamos falando da extirpação de uma etapa essencial ao desenvolvimento emocional do ser humano que traz, como conseqüência a médio-longo prazo a infantilização da sociedade como um todo. Porque o crescimento emocional do ser humano segue uma regra simples e clara: vivência não elaborada se torna latente; e em sendo latente se torna dominante.

Essa infantilização já está nos custando caro social e economicamente.

Portanto, meu recado aos pais de meninos e meninas: PÉ NO FREIO. É preciso, é urgente, que se imponham limites.

Não é fácil, não é cômodo, não é conveniente. É um pé no saco. É briga e discussão depois de um dia estressante no trabalho - particularmente porque a maioria dos pais não pensa assim: acha mais fácil deixar o cavalo guiar a carroça.

Depois choram as abóboras esmagadas pelo chão.

4 de jan de 2008

COISAS QUE ESPANTAM VII


Estava eu tra-la-lá e a caixa do supermercado muito composta ia passando as compras:

*biiip* desinfetante
*biiip* café
*biiip* pão
*biiip* batata
*biiip* refrigerante
*VRRRRRRRRRRRbiiip* picanha

- Que foi isso? - pergunto.

- O alarme.

- Alarme?! Picanha agora também tem alarme?

A garota dá de ombros com indiferença:

- Pois é...

- Como assim? - insisto - Alguém já tentou sair daqui assim, na maior, com uma picanha embaixo do braço?

Ela olha de soslaio para o fiscal uns metros adiante. A voz sai num sussurro:

- A senhora não ia acreditar, mas outro dia um senhor ia saindo com um pernil de carneiro inteirinho embaixo das calças...

- Mas dinheiro pra celular, todo mundo tem. - sentencia o "mano" ajeitando as caixas de leite na sacola.

Deixo o supermercado apreensiva: será que a garota desmagnetizou direitinho a minha picanha?

E se o alarme tocar?

Já posso ver a cena:

- A senhora não ia acreditar, mas outro dia uma mulher com jeito de maluca tentou sair daqui com uma picanha inteirinha escondida entre as compras...

3 de jan de 2008

O TIO QUE EU NÃO TIVE


Em meus incertos (e quando não são?) tempos de adolescente, entre as centenas de lombadas - algumas já então bem desgastadas, da biblioteca de meus pais um título me chamou a atenção. Fosse hoje, teria passado adiante, imaginando tratar-se de um mais uma pseudo-obra de auto-ajuda de qualidade literária tão duvidosa quanto a intenção. Mas como naquela época toda a "literatura" de auto-ajuda limitava-se a "Como Conquistar Amigos e Influenciar Pessoas", não titubeei.

A ARTE DE AMAR

Que tivesse alguma relação com o Kama Sutra nem me passou pela cabeça, até porque naquele tempo uma guria de 15 anos normalmente nem tinha noção dessas coisas: as que já tinham beijado eram "experientes" e, devo confessar, olhadas com alguma desconfiança pelas demais.

De qualquer forma, peguei o livro e dei uma folheada rápida: não tinha nada pra fazer naquele dia a não ser estudar pra uma prova de matemática na qual eu sabia que ia me dar mal.

Folheei ali mesmo, em pé junto à estante. Então fui sentando, e embalada pela ternura da voz que sussurrava aos meus ouvidos, me aconcheguei no sofá ainda longe de imaginar que aquele momento teria conseqüências perenes, que aquela voz haveria de me acompanhar, de guiar meus passos pelos anos seguintes e, quem sabe, até o último de meus dias.

Já lá me surpreendeu a atualidade da visão daquele homem, que há então mais ou menos uns 20 anos atrás via o mundo exatamente como se descortinava ao meu redor. Mal imaginava, no entanto, que tal visão continuaria atual ainda hoje, com toda a complexidade que a tecnologia e as novas formas de produção acrescentaram à vida do ser humano.

À Arte de Amar, seguiram-se o Ter ou Ser, O Medo à Liberdade, O Coração do Homem, a Anatomia da Destrutividade Humana, O Conceito Marxista do Homem e, finalmente, Meus Encontros com Marx e Freud. A bibliografia vai bem mais além, mas esses foram os livros que li e que me abriram os olhos e o coração de muitas formas, reforçando a crença de que sim, a humanidade é uma criança muito doente mas, sim, definitivamente tem cura, e esta cura começa no indivíduo, em cada um de nós; em simplesmente aprender a amar sem esperar resposta, resultado ou conseqüência, apenas amar e, finalmente, entender os versos de Drummond:

Que pode uma criatura,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Erich Fromm me salvou do niilismo, me permitiu sobreviver ao desafio de Schopenhauer e Kierkegaard - que só recomento aos fortes de espírito -, com essa fé não só inabalada, mas fortalecida.

Mas, acima de tudo, ele abriu para o meu adolescente coração as portas da poesia e do verdadeiro sentido do verbo "Amar".

A CULPADA É A CORUJA



Se um único evento pode sintetizar a miséria espiritual da humanidade, para mim esse evento é o reveillon.

Alguém pode argumentar que o lógico seria o carnaval, mas contra este pesam restrições geográficas e culturais que fazem da "festa da carne" um evento localizado.


O reveillon é diferente: do espaço pode-se ver o rastro de explosões multicoloridas demarcando o avanço do novo ano pela superfície do planeta.


Dizem que é mágico.


Não vejo magia nenhuma nas bebedeiras, no barulho, na histeria, nos excessos e nas mortes que seguem no rastro dessa insanidade coletiva. Vejo o que são no dia seguinte: a sujeira nas ruas, o arrependimento, as emergências lotadas.


É assim, ano após ano, que começamos o Novo Ciclo. Convenhamos que não parece muito auspicioso.


O meu reveillon pessoal acontece ao despertar na manhã do dia 1º de janeiro, contemplando a paz das ruas finalmente desertas, ouvindo o canto aliviado dos pássaros por sobreviverem àquela noite de terror; apreciando o sono tranqüilo dos bebês finalmente livres de sobressaltos.

Nessa virada de ano, o grande show pirotécnico de Capão da Canoa; que reuniu milhares de pessoas em expectativa à beira-mar foi abortado. Os culpados? Três chordatas (ah, se ao menos também o fôssemos!), ou corujas-buraqueiras; mais precisamente: três Speotyto cunicularia; criaturinhas de 20-30cm de altura, pesando em média 170g com peito branco e plumagem caramelo e visão 100 vezes mais aguçada que a humana - aparentemente, em mais de um sentido.

Pergunto às dezenas de milhares de convivas roubados da pirotecnia:


Terá a falta dessa artilharia terríveis efeitos no destino da humanidade em 2008?


As festividades que marcaram a chegada de 2007 fizeram desse um ano melhor que 2006?


E tão festejada chegada do Milênio? Que melhorias trouxe à civilização?


Pois os erros não se corrigem com grandes pirotecnias; as injustiças não se apagam em grandes celebrações; a paz se faz distante da histeria das multidões; e o amor não visceja na ilusão.

Para aqueles que ainda acreditam que há uma Lei Cósmica da Ação e Reação segundo a qual nada acontece em vão, para os que crêem nas Asas da Borboleta; a ocorrência de Capão da Canoa encerra uma profunda lição:


Festejemos, sim, esse momento emblemático; mas no aconchego daqueles que realmente nos são caros, e o façamos em paz e harmonia evocando em silêncio a presença dos que amamos e cujo convívio não mais podemos desfrutar. Usemos a dita mágica desse momento para refletir e avaliar nossas ações passadas, buscando em nossos erros não a culpa, mas a sabedoria para corrigi-los.

Ao invés de esbanjar em fogos, bebidas, comidas e roupas caras que não mais terão uso ao amanhecer do ano cuja chegada brindamos; empreguemos esses recursos em gestos e obras que irão se reproduzir e perpetuar não só durante as celebrações do Novo Ano, mas ao longo deste e pelos que se seguirão.


E que 2009 entre no silêncio dos corações.


E 2010, 2011, 2012, 2013, 2014...