5 de jan. de 2010

OUTROS VERANEIOS



Todo começo de ano é a mesma coisa: a corrida histérica pelos presentes de Natal, a corrida histérica pela melhor festa de reveillon e, na sequência, a corrida histérica pelo melhor lugar na praia.

Ah, a praia... a praia da minha infância era um amontoado de chalés de madeira dispersos entre os dois braços mortos e as dunas que se estendiam até a faixa preta (hoje av. Paraguassú), ligados por vias precariamente pavimentadas, quando não meras trilhas de areal. Qualquer chuvinha mais metida a besta nos deixava literalmente ilhados, fazendo da carroça do padeiro nossa única ligação com o mundo exterior.

A praia de minha infância tinha dois ritmos: da manhã de segunda ao anoitecer de sexta-feira, a praia era povoada por mulheres e crianças e o cardápio era o mesmo da cidade: arroz, feijão, bife, guisadinho, pastel, rosbife, salada e por aí vai. Depois das oito da noite pela rua só passava gato ou algum salva-vida indo visitar a namorada - era tradição que as empregadas namorassem os salva-vidas, por isso a praia era delas à tarde, mas chego nisso depois.

Ao anoitecer de sexta-feira, a criançada se amontoava nas frentes das casas esperando despontarem os faróis anunciando a chegada dos pais. E ainda da noite de sexta até o finalzinho da tarde de domingo toda a praia cheiraria e churrasco e peixe assado. Durante essas três noites o toque de recolher era suspenso e se podia ouvir música e conversas altas até por volta da meia noite. A pequena boate fazia até uma matiné especial pras crianças nas tardes de sábado.

Ao anoitecer de domingo a maioria dos pais pegava a estrada. Como os restantes partiriam logo ao amanhecer, os domingos acabavam cedo, aí pelas nove da noite.

Como a maioria das famílias, éramos regidos pelo ritmo das mulheres de segunda a sexta, mas havia a minha avó, que às cinco e meia religiosamente, acordava e independente do tempo vestia o maiô e começava o ritual do chimarrão batendo as chinelas de "matéria" pra lá e pra cá pela varanda que circundava a casa até que alguma alma desse sinal de vida - o que acabava acontecendo sempre aí pelas sete horas quando começava a função do café da manhã.

Mas antes do café da manhã, tinha o ritual de espiar pelas frestas das venezianas ainda cerradas. Se tivesse sol, corríamos a vestir os maiôs; se não, de volta pra cama.

Às oito, devidamente alimentados e inspecionados nos perfilávamos pra percorrer o longo e acidentado caminho que nos levava ao mar abarrotados com cadeiras, esteiras, toalhas, bolas, pás baldes e outros brinquedos - por medo dos afogamentos, o uso das planondas era proibido para nós.

A primeira parte da caminhada se dava escorregando as havaianas pelas festas das pedras mal assentadas do calçamento. Sábia, minha avó caminhava rente ao meio-fio nivelado pela areia empurrada pelos veículos.

Vencida essa etapa, ingressávamos nos brejos do Braço Morto levantando nuvens de mosquitos à nossa passagem. E vá batendo toalhas e camisetas contra as pernas. A essa altura nós, as crianças de então, já seguíamos mais de uma centena de metros à frente das mulheres na mesma corrida de sempre pra ver quem galgava primeiro as dunas, o último obstáculo a superar.

E era só lá, do alto das dunas, que acabava o suspense, e a imensidão revelava seu humor para além de onde a vista alcançava. Via de regra era cinzento e carrancudo rugindo e saltando ameaçadoramente.

Mas havia os raros dias em que se estendia placidamente tingido de azul-esmeralda listrado por gentis marolas brancas.

Algumas poucas famílias como a nossa convergiam para aquele santuário carregando baldes, bolas, toalhas, esteiras, raquetes, guarda-sóis e caixas de isopor contendo bebidas e um lanchinho. Com cada família no seu nicho, sobrava uma enormidade de espaço pra jogar frescobol, futebol, vôlei, pegar jacaré de olhos fechados ou mesmo correr com os cachorros pra lá e pra cá - sim, porque cachorro também podia desfrutar do mar na minha infância e a minha Dolly era uma assídua frequentadora das areias do Imbé.

E assim se arrastavam as manhãs como as sombras pelo chão até que as mães dessem o toque de recolher - sempre ao meio-dia, quando faltava espaço à sombra dos guarda-sóis.

E lá íamos nós saltitando e afundando até os joelhos nas areias escaldantes duna acima e duna abaixo até alcançar o alívio do manguezal protegidos dos mosquitos pela grossa camada de areia a recobrir nossas canelas. Carregadas no colo, as crianças pequenas via de regra já dormiam a essa altura acrescentando um peso extra às mães já abarrotadas pela traquitanda que carregavam todo o dia pra lá e pra cá.

À visão do topo do telhado de nosso chalé, começava a corrida pelo chuveiro. E toca tomar banho, tirar o sal dos cabelos, se vestir e sentar à mesa com a barriga já roncando pelas costas, esperando enquanto a mãe esperava a vó tomar banho pra aí então dar banho no nenê e depois tomar banho também pra só então sentar à mesa dando largada à terceira corrida do dia.

Findo o almoço, toque de recolher até as três da tarde e ai de quem fizesse um barulhinho sequer. Enquanto cerravam-se as venezianas da casa, nos reuníamos num canto do avarandado jogando pif-paf. O clip-clop bucólico da carroça do padeiro encerrava aquele estado de sítio. Aí pelas quatro da tarde, depois do café, estávamos livres pra correr e gritar como crianças normais.

Pedalando pelas ruas testemunhávamos a marcha das empregadas para encontrar os salva-vidas à beira-mar.

As poucas crianças que se juntavam à procissão eram instruídas a se manterem longe das águas: nas horas seguintes os olhos dos salva-vidas estariam em todos os lugares, menos no mar.

Dispersos, nos divertíamos jogando bola ou simplesmente pedalando nossas monaretas pra lá e pra cá até que as mães começassem a nos chamar aos gritos das portas das casas para o jantar.

Aos finais de semana essa rotina se alterava um pouco. Enquanto nos sábados o que mudava basicamente era o cardápio e a inclusão da pescaria nas atividades vespertinas, aos domingos grande parte das famílias estendia a manhã à beira-mar até por volta das três da tarde. Por isso aos domingos a praia cheirava a churrasco das onze da manhã até por volta das seis da tarde.

Naquele tempo, as férias eram um período sabático de sossego e felicidade, da mais pura alegria de viver.

O mesmo Imbé simples e bucólico de outrora, hoje povoa as páginas policiais com atropelamentos, tentativas de linchamentos, roubos, assaltos, bondes e espancamentos.

Sossego não existe mais nem se nos trancafiarmos dentro de casa: durante o dia somos invadidos pelo alarido das pessoas e carros trafegando sem destino de um lado para o outro aos berros e com o som a mil. À noite, a mesma coisa. Qualquer lugar onde se pretenda ir está tomado de gente, é um mar de gente nos impondo a desagradável visão de seus pelos e gorduras expostos pelas exíguas sungas e fios dentais mesmo dentro das farmácias, bancos e supermercados.

E é uma gente grossa, barulhenta e mal-educada; uma gente que não entende a diferença entre liberdade e libertinagem, agindo como se a praia fosse a casa da mãe Joana onde se pode tudo que se quer - e Deus sabe que não há limites para a estupidez do querer humano e para o rastro de sujeira e devastação que vai deixando ao passar.

É uma gente feia por dentro e por fora, cujo único talento na vida é fazer de um paraíso um lugar infernal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário