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18 de fev. de 2016

MARA E DEUS




Aquele teria sido um dia como outro qualquer, não tivesse Mara concluído que era Deus. Já devia ter desconfiado por causa dos pássaros, mas diabos, era Deus e não Einstein. “Daqui em diante os dias têm que ser sempre especiais” pensou “é assim que deve ser quando se é Deus”.

Mas logo descobriu que isso só não adiantava: os dias continuaram lerdos e cinzentos. E Mara concluiu que para ser Deus também precisaria parecer Deus. Os desenhos que encontrou em livros e na internet não ajudaram muito: não queria de uma hora pra outra virar um velho barbudo e rebugento, ainda mais com aquelas roupas e sandálias horríveis! Parecer com aquele Deus estava definitivamente fora de cogitação.

“Ainda assim tem os pássaros”.

Também havia as flores, os pequenos animais e, mais recentemente, algumas nuvens.

Com as nuvens, foi assim: outro dia ela chorou e o dia começou a chover. Ao acordar esquecida das lágrimas, o dia também esqueceu da chuva. Tentou chorar, só pra ver o que acontecia, mas não adiantou. Podia chorar daquele outro jeito, sem motivo algum, mas não conseguia chorar quando queria.

Decidiu rir, e isso foi bem mais fácil. “Como pode?”, perguntou-se “ser tão mais fácil sorrir do que chorar, quando é muito mais difícil ser feliz?”

Abriu o caderno de matemática desperdiçando horas preciosas para decifrar a lição. “Se fosse mesmo Deus” cutucava uma vozinha lá no fundo, “entenderr matemática ia ser mais fácil que dar um pum”.

Fechou o caderno contrariada: “E Deus, por acaso, precisa de matemática?”

Ligou a televisão e pelo resto da tarde esqueceu o assunto.

Às sete e vinte em ponto o perfume da mãe entrou pela porta da frente.

Sem nem perguntar como havia sido o dia, ela já veio reclamando da bagunça e mandando recolher os cadernos espalhados na sala. Mara sentiu ganas de usar seus poderes divinos, mas se conteve: Deus não perde seu precioso tempo com picuinhas.

Desligou a tv e deixou a sala sem o menor rastro de sua divina presença.

Às dez pras oito o perfume do pai chegou batendo a porta.

Às oito e quinze os três sentavam à mesa hipnotizados pela tv.

Foi quando Mara concluiu que Deus não devia assistir televisão: todas aquelas notícias horríveis só serviam pra lembrar que devia estar mais preocupado com a paz no mundo e o fim do aquecimento global do que com a cassata que esperava no freezer.

- O que você faria se fosse Deus? – perguntou de repente ao pai.

- Trocaria de carro, mandava meu patrão pro espaço e ia morar nas Bahamas – respondeu o pai sem vacilar.

- E você, mãe?

Dona Margarete respirou fundo, olhando para o teto.

- Bem... – começou puxando forte do fundo do cérebro – Não acho que fosse precisar de plástica nem de lipoaspiração... Assim, se eu fosse Deus ia ter todas as roupas e sapatos que quisesse... E também ia viajar, conhecer o mundo... Paris, Miami, Nova Iorque...! Ia ver tudo que é museu, ir à ópera... a Broadway... ai, tanta coisa!

Calada, Mara concluiu que seus pais não entendiam nada de ser Deus: o que eles queriam era ser ricos como o Onassis.

- E você, minha filha? – perguntou o pai.

- Eu?! – Mara dá de ombros – Não sei... acho que nada.

- Nada?

- É difícil ser Deus, porque qualquer coisa que a gente faça pode ter sérias conseqüências, então acho que de medo eu não ia fazer nada.

Nisso começou a novela, e todo o brasileiro sabe que novela é mais importante que Deus.
A empregada entrou e saiu como uma sombra sem sequer tilintar os pratos e talheres que recolhia da mesa. Mara a seguiu até a cozinha.

- Marialva, o que você faria se fosse Deus?

- Acabava com a miséria no mundo – foi a resposta imediata – E de quebra acabava com tudo quanto é bandidagem.

- E depois?

- Ah, depois eu ia dencansar. Que só dar conta de tanta miséria e bandidagem deve ser uma trabalheira danada.

- Mas, se acabar com a miséria e a bandidagem no mundo, pra onde é que elas irão? Porque se alguma coisa some num lugar, tem que aparecer em outro, porque nada deixa simplesmente de existir, exceto quando a gente morre, mas ainda assim fica a carcaça...

- Ora, bolas! – impacientava-se Marialva – Deus é Deus, ele dá um jeito.

- Mas, se você fosse Deus, que jeito daria?

- Sei lá – Marialva bateu com as mãos na água ensaboada da pia – Não sou Deus mesmo... mas que coisa... Sabia que pensar assim é pecado?

- Pecado? – repete Mara com assombro.

- É. – afirma Marialva secando as mãos no avental – Imaginar que a gente pode ser Deus é pecado, e dos grandes.

Mara podia ter respondido que sendo ela própria Deus, não era pecado algum, mas deixou por isso. Naquele momento Deus decidira que estava com sono. O mundo que esperasse.



Na manhã seguinte, Deus acordou atrasado para a escola, porque mesmo cansado e sendo Deus, não conseguiu pregar o olho antes das 4 da manhã.

Engoliu um copo de Nescau enquanto vestia o uniforme e correu até a parada do ônibus.

Indiferente à presença divina, o coletivo passou batido, cuspindo gente pelas janelas. Mara teve ganas de gritar uns palavrões, então ocorreu-lhe que sendo Deus, não precisava de ônibus. Podia simplesmente parar o tempo, ou fazer que passasse mais devagar e assim ir andando até a escola e aproveitar cada detalhe daquela manhã radiante.

Deus chegou na escola depois do recreio, e com isso, ganhou um bilhete nada amigável para ser assinado pelos pais.

“Acabei esquecendo de parar direito o tempo...”, pensou. “Ou, quem sabe, estivesse tão ocupado com coisas mais importantes. .. Afinal, Deus está em todas as partes e ao mesmo tempo, mas não tem como a cabeça estar em mais de um lugar...”

- Querem ficar calados, pelo amor de Deus? – gritou a professora de português interrompendo o raciocínio de Mara justo quando chegava a essas conclusões importantes.

- Não entendi, professora... – Mara levanta a mão – Quando é que Deus lhe deu o direito de barganhar em seu nome?

A classe explode em gargalhadas.

Logo, Deus ganhava um segundo bilhete ainda menos amigável para ser assinado pelos pais.

- Eu não entendo... – Mara argumentara ao diretor, que por ser padre devia ter muita experiência nessas coisas sacras – Não foi o próprio Deus quem disse “não usareis meu nome em vão”?

Padre Manfredo teve que sorrir:

- É que não levamos as coisas assim, no pé da letra...

- Mas sempre esperam que Deus leve, não é?

O diretor fechou a cara, rabiscou alguma coisa no bilhete e a mandou esperar no corredor.
Enquanto esperava, Deus ficou sentado na secretaria pensando. E quanto mais pensava, mais concluía que as pessoas não levavam Deus tão a sério quanto parecia. Afinal, a qualquer coisa que acontecia exclamavam “Deus me livre!”, um grande rebuliço era sempre um “Deus nos acuda”, sempre que se despediam, era “vá com Deus”, como se Deus fosse um chaveiro, um celular ou um cartão de crédito “não saia de casa sem ele”... E Deus isso, Deus aquilo.... Ela é que não queria ser mandada de lá pra cá por qualquer bobagem... Mas o pior era o “meu Deus”... Ora, e lá Deus era propriedade de alguém?

A cigarra tocou, e Deus foi mandado de volta à sala de aula.

- Por sua causa, aquela bruxa mandou a gente ler todo o capítulo pra semana que vem, e já avisou que vai ter prova!

Aquela não era a vontade de Deus.

Saindo da escola ao meio-dia, resolveu caminhar de volta também. Entre a casa e a escola havia pelo menos umas três igrejas, um centro espírita e um terreiro de umbanda. Decidiu espiar se estava por lá.

O primeiro templo era uma sala comercial adaptada para acomodar um monte de pessoas sentadas em longos bancos perfilados à esquerda e à direita. Ao fundo, uma escrivaninha coberta por uma pano branco fazia as vezes de altar. No canto, uma bateria, microfones e amplificadores misturava-se a uma barafunda de fios remendados. Um sujeitinho moreno e atarracado, enfiado num terno barato a recepcionou do fundo da sala:

- Ah, uma jovem fiel! O quê a aflige, minha filha?

- Nada. – mentiu Mara – Só entrei pra olhar. Gostei da idéia da música.

- Então volte às sete, que é quando temos nosso culto... – convida o homem – É muito bonito: todos cantamos em louvor a Deus.

- Ótimo! – exclamou Mara se retirando.

- Espere! – exclama o homem entregando um folheto – Leve isto, e vá em paz, minha filha.

Ó Deus de Abraão, de Jacó e de José
Tua Luz nos traz justiça
Confirmando a nossa fé
Por isso aqui estamos e erguemos nossa voz
O Senhor é meu Pastor
Dize e responderei

Deus seguiu então para o segundo templo, bem mais requintado e luxuoso que o primeiro. Logo à entrada, à guisa de recepção, numa caixa de acrílico transparente cheia de notas e moedas lia-se a inscrição “dízimos aqui”. Um pequeno grupo de pessoas se espalhava pelos bancos contemplando as paredes lisas com olhares vazios. Uma mesinha no canto disponibilizava panfletos impressos perfeitamente organizados em pilhas com impressões em cores diferentes. Deus pegou um azul.

SINAIS DA SEGUNDA VINDA
Jesus Cristo Voltará à Terra
O Salvador disse a Joseph Smith: "Eu Me revelarei com poder e grande glória (...) e (...) habitarei com os homens na terra por mil anos, e os iníquos não permanecerão." (D&C 29:11; ver também capítulos 43 e 44, "A Segunda Vinda de Jesus Cristo" e "O Milênio".) Jesus nos disse que certos sinais e acontecimentos irão prevenir-nos quanto à proximidade de Sua segunda vinda, também chamada de "o grande e terrível dia do Senhor" (D&C 110:16).

Assombrado, Deus seguiu a leitura:

Os Lamanitas Tornar-se-ão um Grande Povo
O Senhor disse que quando Sua vinda estivesse próxima, os lamanitas se tornariam um povo reto e respeitado. "Mas antes que venha o grande e terrível dia do Senhor (...) os lamanitas florescerão como a rosa" (D&C 49:24). Grande número de lamanitas da América do Norte e do Sul e do Pacífico Sul estão hoje recebendo as bênçãos do evangelho.

E mais adiante:

O Conhecimento dos Sinais dos Tempos Pode Ajudar-nos
Ninguém, exceto o Pai Celestial, sabe exatamente quando o Senhor virá. O Salvador ensinou a esse respeito ao contar a parábola da figueira. Ele disse que, quando vemos a figueira soltando folhas, sabemos que o verão está próximo. Da mesma forma, quando virmos os sinais descritos nas escrituras, saberemos que Sua vinda está próxima (ver Mateus 24:32-33).
O Senhor deu esses sinais para ajudar-nos. Podemos, dessa forma, colocar nossa vida em ordem e preparar a nós próprios e a nossa família para o que ainda está para vir.
Não devemos preocupar-nos com as calamidades, mas esperar com alegria a vinda do Salvador. O Senhor disse: "Não vos perturbeis, pois, quando todas estas coisas (os sinais) acontecerem, sabereis que as promessas que vos foram feitas se cumprirão" (D&C 45:35). Ele disse que os que forem retos não serão destruídos quando Ele vier "mas suportarão o dia, e a terra ser-lhes-á dada por herança (...) e seus filhos crescerão sem pecado (...) pois o Senhor estará em seu reino, e a Sua glória estará sobre eles, e ele será o seu rei e o seu legislador" (D&C 45:57-59).

Discretamente, Deus surrupiou um exemplar de cada cor, enfiou na mochila e saiu dali sem pagar o dízimo.

A terceira parada foi num prédio cinzento onde se entrava subindo uma enorme escadaria. O interior era escuro e frio, e as paredes decoradas com uma profusão multicolorida de pinturas e estátuas competindo pela atenção com os vritrais das janelas em arco. Como nas anteriores, longos bancos se alinhavam perfeitamente, mas este templo tinha seis fileiras que convergiam numa abóbada dourada dominada pela fantasmagórica figura de um enorme cristo ensanguentado suspenso por fios de náilon. Num canto logo à esquerda, duas velhas ajoelhavam diante de dezenas de velas. Dali é que vinha o cheiro rançoso de parafina.

Curioso, Deus seguiu pelo tapete vermelho até chegar a cúpula dourada. À esquerda e à direita, reparou na riqueza dos entalhes das casinhas que abrigavam as imagens coloridas em dourado, vermelho, cinza e branco. Intrigado, Deus subiu os cinco degraus que colocavam a cúpula meio metro acima do resto do lugar. Uma mulher austera apareceu do nada para arrastá-lo escada abaixo:

- Não tem respeito? – ralhou.

- Por quê? É proibido? – perguntou Mara confusa.

- Os passos dos fiéis páram ao pé da escada.

- E Deus, pode?

- É onde ele mora.

Deus ficou parado, boquiaberto enquanto a mulher subia os degraus resmungando:

- Essas crianças de hoje... Não têm respeito por nada!

Deus observou a cúpula tentando encontrar o seu quarto. A única coisa com alguma privacidade era uma pequena capelinha dourada, trancada à chave. Mas ele é que não ia querer morar numa casinha tão apertada, ainda mais ficar trancafiado daquele jeito, sem poder sair quando quisesse!

De saída, recolheu um panfleto impresso em tinta cor de laranja.

Eu, pecador, me confesso...
... Tende piedade de nós

cântico de entrada:

A ti meu Deus cantemos os homens louvor
Ao teu amor respondam com mais amor
Senhor a tua igreja somos nós
Numa só voz
É teu tudo que somos e o que temos
E aqui vimos para adorar
Senhor, a graça imensa de viver
Sem merecer,
A graça de ser filho e de te amar
Vamos louvar
E agradecer
Da culpa tantas vezes repetida
Em nossa vida,
Senhor, a tua Igreja militante
Quer neste instante
Pedir perdão
Senhor, no sofrimento e na alegria
De cada dia
Ajuda-nos a amar o que é melhor
E o teu amor
Aumente em nós

Deus saiu dali perguntando-se o que aquela gente fizera de tão horrível, e o que ele fizera para merecer tanta gratidão. Do que estavam falando? Ele ainda não fizera nada, era Deus só a uns dois dias... Ou será que já era Deus antes de saber? Talvez antes fosse Deus em outra pessoa, e era ela só há pouco tempo. Se fosse assim, sabe-se lá o que tinha feito antes... Deus é que não sabia.

Esses pensamentos foram esquecidos ao chegar à porta do prédio baixo e mal conservado onde dezenas de pessoas humildes se espremiam, algumas tão doentes que mal conseguiam parar em pé. Quando Deus já ia entrando, um homem magro de terno e sandálias advertiu:

- Tem que esperar na fila.

Deus entrou na fila e esperou. Aos sussurros, as pessoas contavam dores e mazelas mazelas. Deus esperou por mais quinze minutos, mas como a fila não andava decidiu deixar para outra hora. Àquela altura já eram duas e meia e Marialva devia estar subindo pelas paredes.

Mas tinha ainda uma última parada.

Entrando por uma viela lamaçenta, chapinhou até um casebre reformado com as paredes caiadas de branco.

- Está fechado. – anunciou uma velha gorda debruçada na janela de um barraco logo à frente ainda antes que Deus tocasse a grade do portão – Se quer serviço, bote num envelope com o nome, o pedido e o dinheiro.

Deus catou na mochila uma nota de 1 real, e demorou para rabiscar um pedido numa folha do caderno. Dobrou cuidadosamente a folha com o dinheiro dentro e ficou esperando.

- Bota aí, na caixa do correio. – disse a velha sumindo por trás da cortina floreada.

No último instante, Deus mudou de idéia. Guardou a folha dobrada com o dinheiro e voltou chapinhando até a avenida.

Como era de se esperar, Marialva estava subindo pelas paredes:

- Por onde andou, menina? Tem idéia do susto que me pregou? De onde é que saiu esse barro todo? Agora eu é que vou ter que lavar!

Mara quase respondeu que não cabe aos mortais questionar os caminhos de Deus, mas achou mais prudente largar a mochila no quarto e esperar enquanto o almoço esquentava no microondas.

______________

imagem: “The Child Grew Strong in Spirit”, por Ann Guerri

21 de abr. de 2013

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


Diálogo imaginário entre dois motoristas num semáforo:
 
- Como você pôde gastar 300 mil Reais num automóvel?
 
- Sem pensar.
 
E naquela fração de segundo uma criança morreu de fome.

16 de mar. de 2013

MARA E AS RELIGIÕES



BOM DIA!!!
 
Já fazia um bom tempo que eu não postava uma parábola zen, então aí vai uma para este sábado ventoso:
 
Em uma de suas muitas incursões pelo interior da Índia para combater a luz e disseminar a ilusão de Maya, o demônio Mara e seus auxiliares depararam-se com um homem no exato momento em que, interrompendo sua caminhada de meditação, esse teve a face iluminada pelo entendimento ao pousar os olhos no chão logo à sua frente.
 
- O que esse homem encontrou para ficar assim iluminado, Mestre? - perguntou intrigado um dos auxiliares.
 
- Um pedaço da Verdade. - respondeu Mara retomando o passo alegremente.
 
- Como pode ficar feliz, Mestre? - perguntou um auxiliar perplexo com a tranquilidade do malévolo - Não lhe incomoda que alguém encontre um pedaço da Verdade?
 
- Em absoluto! - replicou Mara com um sorriso - Pois a cada pedaço que encontram, ao invés de juntá-lo aos demais, os homens correm a fundar uma nova crença, escondendo-o por trás de seus templos e rituais.
 
(Foto: Igreja do Santo Rosário - Holy Rosary Church -, em Shettihalli, Índia. Construída por missionários franeses em 1860 nas proximidades de Sakleshpur. Todo o ano, com a chegada das monções, a igreja é engolida pelas águas do reservatório de Gorur até a altura das torres, para voltar a ressurgir com o recuo das águas ao final da estação. Atribui-se ao uso de uma combinação de tijolos e argamassa com uma mistura de açúcar mascavo e ovos a causa de sua impressionante resistência.)

18 de jan. de 2013

O MITO DA CRIAÇÃO SEGUNDO OS KHOISAN¹




Houve um tempo em que homens e animais viviam abaixo da superfície da Terra, juntamente com Kaang, o Grande Mestre e Senhor da Toda a Vida.

Neste lugar, homens e animais viviam juntos em paz. Todos se entendiam e não havia necessidade de nada. E, apesar da ausência do sol, nunca era noite.

Nessa época abençoada, Kaang começou a planejar as maravilhas que colocaria no mundo acima.

Primeiro Kaang criou uma grande árvore, com galhos que cobriam todo o território, depois seguiu decorando o mundo à sua vontade.

A certa altura, dando-se por satisfeito, Kaang voltou à enorme árvore que criara e na base dessa árvore ele cavou um buraco que descia até o mundo habitado por homens e animais e por este buraco guiou o primeiro homem até a superfície.

Kaang então sentou à borda do buraco observando enquanto as pessoas subiam, seguindo o primeiro homem. Em seguida, Kaang começou a trazer os animais.

Apressados, alguns animais descobriram como subir pelas raízes da árvore e continuaram subindo até os galhos, que percorreram dispersando-se em várias direções sem que Kaang reparasse.

Depois de ter subido o último dos animais, Kaang reuniu homens e animais instruindo-os para que vivessem pacificamente. Então, dirigiu aos homens e mulheres ordenou que evitassem fazer fogo, pois com o fogo viria um grande mal. Homens e mulheres prometeram a Kaang jamais fazer fogo.

Dando-se por satisfeito, Kaang partiu para um lugar de onde pudesse observar seu novo mundo em segredo.

Ao entardecer, homens e animais observaram com assombro e fascínio o sol desaparecer sob o horizonte. Mas quando a noite caiu, o medo entrou no coração das pessoas: como não tinham olhos tão bons como os dos animais, elas não mais podiam ver umas às outras.

Tampouco as pessoas tinham a quante pelagem ou plumas dos animais para se aquecer, e começaram a sentir muito frio.

Como se não bastasse, famintos animais que não haviam ouvido as instruções de Kaang começaram a rondar o grupo ameaçadoramente.

Em desespero, um homem sugeriu que fizessem uma fogueira. Os homens fizeram a fogueira e logo todos podiam ver-se, estavam aquecidos e sentiam-se mais seguros pois o fogo afugentara os animais.

Assim os homens se afastaram dos animais e perderam a capacidade de se comunicar com eles.

E hoje, ao invés da amizade, o medo é o que liga os homens aos animais.

(Foto: bosquímanos fazendo fogo, por Jezand Jennie - http://jennieandjez.wordpress.com/)


(¹) Khoisan (também conhecidos por bosquímanos ou boximanes, hotentotes, coisã ou coissã) é a designação de uma família de grupos étnicos existentes na região sudoeste de África, que partilham algumas características físicas e linguísticas. Aparentemente, estes povos têm uma longa história, estimada em vários milhares, talvez dezenas de milhares de anos, mas neste momento existem apenas pequenas populações, principalmente no deserto do Kalahari, na Namíbia, mas também no Botsuana e em Angola.

História

Os khoisan atuais podem ser descendentes de povos caçadores-recolectores que habitavam toda a África Austral e que desapareceram com a chegada dos bantos a esta região, há cerca de 2 000 anos. Não é provável que os bantos tenham exterminado os khoisan, uma vez que algumas das suas características linguísticas e físicas foram assimiladas por vários grupos bantos, como os xhosas e os zulus. É mais provável que a redução do seu território de caça, derivado da instalação dos agricultores bantos, tivesse sido uma causa para a redução do seu número e da sua área habitada.

Até a instalação dos holandeses e franceses huguenotes na África do Sul, há cerca de 200 anos, estes povos ainda povoavam grandes extensões da Namíbia e do actual Botswana. Em seguida, porém, foram praticamente exterminados, uma vez que não aceitavam trabalhar nas condições que os novos colonos exigiam.

Estes colonos chamaram-lhes hotentotes - que significa "gago" na língua neerlandesa, provavelmente devido à sua língua peculiar - ou bushmen, ou seja "homens da floresta", termo que foi adaptado para a língua portuguesa como bosquímanos. Ambos os nomes têm, actualmente, uma conotação pejorativa, assim como o termo san usado para um grupo específico de khoisan, que, na sua língua, significa "estrangeiro". Os nomes que se utilizam, actualmente, são derivados dos nomes das suas línguas (ver línguas khoisan). No entanto, a palavra hotentote continua a ser utilizada nos nomes de várias plantas e animais da África do Sul, como o chorão-das-praias (Carpobrotus edulis, em inglês hottentot fig, "figo hotentote"), ou o toirão-hotentote (Turnix hottentotta).


Anatomia

Fisicamente, os khoisan são em média mais baixos e esguios que os restantes povos africanos. Além disso, possuem uma coloração de pele amarelada e prega epicântica nos olhos, como os chineses e outros povos do Extremo Oriente. Algumas destas características são agora comuns a outros grupos étnicos sul-africanos, sendo patentes por exemplo em Nelson Mandela.
Uma outra característica física dos khoisan é a esteatopigia das mulheres (grande desenvolvimento posterior das nádegas), que levou a que uma mulher tivesse sido levada para a Europa no século XIX e usada para exibição em feiras, a famosa Vénus Hotentote.

Genética

Os khoisan possuem o mais elevado grau de diversidade do ADN mitocondrial de todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das comunidades humanas com uma história mais antiga. O seu cromossomo Y também sugere que os khoisan se encontram do ponto de vista evolucionário muito perto da raiz da espécie humana.

De acordo com um estudo genético autossômico de 2012, os khoisan podem ser divididos em dois grupos, correspondentes às regiões noroeste and sudeste do Kalahari, os quais se separaram dentro dos últimos 30000 anos. Todos os indíviduos testados na amostra apresentaram ancestralidades de populações não-khoisan que foram introduzidas no período de 1200 anos atrás, como resultado da expansão bantu. Além disso, os hadzas, um grupo de coletores caçadores do Leste da África, que também utilizam uma língua baseada em cliques (como a dos khoisan), possuem um quarto de sua ancestralidade vindos de uma população relacionada aos Khoisan, revelando uma ligação genética antiga entre o Sul da África e o Leste da África.

(fonte: Wikipedia)

16 de jan. de 2013

A ORIGEM DOS PANDAS - FOLCLORE CHINÊS



BOM DIA!!!
 
Era uma vez na China, há muito, muito tempo atrás uma garotinha que amava os pandas - que naquele tempo eram todos branquinhos, como os ursos polares.
 
Certo dia, passeando pela floresta, a garotinha viu um panda indefeso ser atacado por um leopardo. Sem hesitar, ela armou-se com uma vara de bambu e partiu em defesa do panda golpeando vigorosamente o leopardo.
 
Embora usasse toda a força e vontade, seus golpes mais irritaram do que afugentaram o felino que ao ver-se atacado reagiu com violência matando-a impiedosamente enquanto o panda escapava ileso.
 
Quando a notícia se espalhou, todos os pandas da floresta se reuniram para prestar homenagens e expressar sua gratidão à menina ostentando braçadeiras pretas em sinal de luto.
 
Molhada pelas copiosas lágrimas dos pandas, a tinta preta das braçadeiras começou a escorrer, manchando seus peitos e parte dos braços. Também seus olhos foram manchados ao secar o pranto.
 
A cada vez que um panda abraçava outro para consolá-lo, deixava marcas pretas em suas costas, e quando não suportando o som da própria tristeza os pandas finalmente cobriram seus ouvidos, acabaram manchando-os também.
 
Esta lenda chinesa conta a origem das manchas dos pandas, símbolos da paz para os chineses porque, segundo os antigos, os pandas só se alimentam em procriam em tempos de paz.

11 de jan. de 2013

NA CORDA BAMBA DA VIDA




Era uma vez um homem que buscava seu sonho e sabia que caminho seguir para realizá-lo.

No meio do caminho entre o sonho e sua realização havia uma ponte sobre um rio de águas perigosas.

No meio da ponte, o homem que buscava seu sonho deparou-se com um homem trazendo uma corda enrolada à cintura.

- Pode segurar para mim, por favor? - pediu o estranho estendendo uma ponta da corda.

De boa vontade, o homem que buscava seu sonho tomou a corda nas mãos.

- Obrigado. - disse o homem que vinha - Duas mãos, por favor, segure bem firme.

E com essas palavras, o homem saltou da ponte.

- Que loucura é essa? - gritou o homem que buscava seu sonho agarrando firmemente a corda.

- Só segure firme, por favor: eu certamente morrerei se você soltar! - gritou o homem pendurado na corda.

- Isto é ridículo! - protestou o homem que buscava seu sonho tentando içar o outro - Não consigo puxá-lo sozinho. Por que fez isso?

- Minha vida agora está em suas mãos, sou sua responsabilidade. - respondeu o homem pendurado na corda.

- Escute... - pediu o homem que buscava seu sonho - Não posso segurá-lo indefinidamente. Tampouco posso puxá-lo, mas se você apoiar as pernas contra o pilar da ponte e começar a escalar eu posso ajudá-lo a subir.

- Para quê, se tudo que precisa é ficar aí segurando? - foi a resposta.

O homem que buscava seu sonho olhou ao redor em desamparo, mas não havia ninguém mais para ajudá-lo, nem mesmo algum poste ou aresta onde pudesse amarrar a corda. Consultando o relógio, reparou que a janela de sua grande oportunidade começava a se fechar. Se fosse outra pessoa, ponderou, poderia facilmente soltar a corda, abandonar o homem pendurado à própria sorte e chegar ao seu destino ainda a tempo de concretizar seu sonho; mas sendo quem era, sabia que viveria pelo resto de seus dias sentindo-se culpado e infeliz.

- O que você quer de mim? - bradou frustrado.

- Só estou pedindo sua ajuda! - suplicou o homem pendurado.

- Como posso ajudá-lo, se não tenho forças para puxá-lo e não há nada em que amarrar a corda enquanto vou buscar ajuda?

- Eu já disse: é só segurar. - argumentou o homem pendurado - Será que é pedir demais?

Foi quando o entendimento atingiu o homem que buscava seu sonho como um raio:

- Se você quer passar o resto da vida aí pendurado nesta corda é problema seu, mas tenho planos melhores para a minha vida do que passar o resto dos dias segurando enquanto você não faz nada para subir! - gritou decidido - Cada um é sujeito do próprio destino: estou devolvendo a você o poder de decisão sobre sua vida!

- Não estou entendendo! - protestou o homem pendurado - Que tipo de egoísta é Você para me abandonar justo agora? O que poderia ser mais importante para você do que a minha vida?

- Sua vida, sua decisão... - argumentou o homem que buscava seu sonho - Ou você começa a subir para se salvar enquanto eu sirvo de contrapeso, ou eu vou largar a corda. A decisão é sua.

Não houve resposta a essas palavras, nem sequer um movimento na corda que indicasse que o homem pendurado estava fazendo algum esforço para se salvar.

- Muito bem... - declarou o homem que buscava seu sonho - Aceito sua escolha.

E dizendo isso, largou a corda e seguiu seu caminho sem culpa.

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Parábola encontrada na internet. Adaptação minha.
Foto: Walking the Tight Rope, por Harold Naideau.

27 de dez. de 2012

PARA CONSERTAR O MUNDO



Andava um famoso cientista às voltas com o imenso problema de consertar o mundo quando seu filho de sete anos irrompe em seu escritório oferecendo-se para ajudá-lo em seu trabalho.

- O papai está trabalhando para consertar o mundo. É muito trabalho para um homem pequeno como você. - explica o cientista tentanto dissuadir o menino.

- Mas eu quero ajudar, papai. Não é isso que a gente faz quando é família? Ajudar um ao outro? É o que a mamãe sempre diz.

- Sim, é verdade. A mamãe está certa. - rende-se o cientista com um suspiro.

- Então, como é que eu posso ajudar? - pede o garoto sorrindo orgulhoso.

- Deixa eu ver... - diz o cientista correndo os olhos pelas estantes apinhadas de livros como à busca de salvação.

É quando seu olhar recai sobre uma revista aberta sobre a mesa de trabalho onde vê impressa uma imagem do planeta Terra. Depois de ponderar por um instante, o cientista arranca a página desfazendo-a em pedacinhos que estende ao filho dizendo:

- Aqui. O mundo está assim, está vendo? Todo despedaçado, e nós precisamos colar os pedacinhos todos de volta no lugar. Você acha que consegue?

- Claro, papai! - exclama o menino aceitando os pedacinhos de papel rasgado.

- Certo. Aqui está uma folha de papel e um tubo de cola, pode começar. - diz o cientista limpando uma área da mesa para dar espaço ao menino - Você vai trabalhar aqui bem do meu lado e em silêncio, ok? Só vai me chamar quando tiver terminado.

Dito isso, o cientista volta a afundar-se em suas complexas equações deixando o menino sozinho para montar aquele quebra-cabeça. Pouco tempo depois, o menino avisa:

- Oh! - exclama o garoto a certa altura com tanta pungência que chama a atenção do pai.

- O que foi?

- Deu tudo errado. - lamenta-se o menino à beira das lágrimas.

Um tanto exasperado, o cientista larga mais uma vez o trabalho para ver o que acontecia.

- Mas o que que é isso? - pergunta ao ver o rosto sorridente de um homem num anúncio de pasta de dentes - Como é que isso foi acontecer?

- É que eu estava tentando montar o mundo como você falou, mas era muito difícil. Aí eu vi que tinha esse homem aí do outro lado, que era bem mais fácil de montar, e pensei que se eu colasse de volta os pedaços no rosto desse homem, eu ia montar de volta o mundo do outro lado da folha. Só não lembrei que o mundo ia ficar colado no papel que estava embaixo, e agora não dá mais pra ver se eu consertei o mundo ou não.

- Meu filho, você não só consertou o mundo da revista, como mostrou uma solução que tornou todo o meu trabalho uma brincadeira de criança. - diz o cientista erguendo a folha de papel contra a luz e mostrando ao menino.

Lá estava o planeta terra direitinho, por trás do rosto sorridente da pasta dental.

Ato contínuo, o cientista fechou todos os livros e cadernos em sua mesa, abriu as janelas do escritório e enquanto a brisa e o sol da manhã invadiam o recinto, convidou:

- Vamos brincar lá fora? Está um dia lindo demais para ser desperdiçado nesta sala fechada.

Antes de sair, pegou uma caneta e rabiscou sobre a pilha de livros e cadernos que recém fechara:

CONSERTEMOS O HOMEM E TEREMOS CONSERTADO O MUNDO!

6 de dez. de 2012

CENOURAS, OVOS OU CAFÉ?


Aos 29 anos, Laura sentia-se vazia e cansada. Por mais que tentasse, nada parecia dar certo em sua vida: cada vez que parecia ter resolvido um problema, outro aparecia para lhe tirar o sono e a paz de espírito. Com a auto-estima lá pelos dedões dos pés, resolveu visitar a avó, a quem não via a quase um ano.


- Estou tão cansada, vovó... minha vida não leva a nada, é tudo tão inútil, não sei mais o que fazer! Estou cansada, triste e com muita raiva! - desabafou aos prantos mal a avó abrira a porta para recebe-la.

Vó Amélia abraçou a neta até que se acalmasse, então convidou:

- Vamos até a cozinha?

Ainda soluçando, Laura seguiu a avó até a cozinha da pequena casa evocando ternas lembranças a cada cômodo por que passavam.

Chegando à cozinha, ao invés da chaleira, vó Amélia encheu uma panela com água e a levou ao fogo. Laura estranhou, mas não disse nada, entregue que estava a seus pensamentos conflituados.

Enquanto a água esquentava, ao invés do chá, vó Amélia jogou uma cenoura, um ovo e um punhado de grãos de café na água, então sentou numa cadeira a esperar em silêncio como se Laura nem estivesse ali.

Achando que a avó não estava regulando bem, Laura perguntou:

- O que você está cozinhando, vovó?

- Cenoura, ovo e café. - respondeu a avó com um sorriso.

Laura abriu a boca, mas vó Amélia com um gesto firme indicou que esperasse.

Quando o timer começou a tocar, vó Amélia desligou o fogo, retirou com cuidado a cenoura e o ovo colocando-os em seguida de molho na água fria e voltou a sentar à espera.

- Tome. - disse estendendo a cenoura a Laura depois de algum tempo - Tente quebrá-la.

Um tanto relutante, Laura pegou a cenoura e sem o menor esforço esmagou-a entre as mãos.

Vó Amélia então estendeu-lhe o ovo.

Laura pegou o ovo e apertou. A casca se partiu, mas o duro ovo cozido permaneceu intacto.

- Agora quero que prove isso. - disse a avó oferecendo a panela.

Laura aspirou o aroma do café,  provou um golinho e devolveu a panela.

- É café... - disse erguendo as sobrancelhas - Não estou entendendo...

- Me diga, minha neta: a água fervente é um estado natural?

- Não, claro!

- Para a cenoura, o ovo e o café, a água fervente é uma circunstância adversa, e cada um reagiu à sua maneira: a cenoura, que era dura e inflexível amoleceu e tornou-se fraca. O ovo, que só contava com sua frágil casca como proteção para o líquido em seu interior continou com a casca frágil, mas seu interior endureceu...

Vó Amélia fez então uma pausa, e tomando outra vez a panela nas mãos, aspirou longamente o aroma do café, então continou:

- Mas o café, ah este sim é único, pois depois de algum tempo na água fervente, ele mudou a própria água...

E foi com um olhar penetrante que parecia enxergar o fundo da alma da neta que vó Amélia perguntou:

- Qual dos três você escolhe ser?

(foto: senhora Beuchert em sua cozinha, Washington, 1917, fotógrafo desconhecido. Mais fotos históricas aqui