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7 de fev. de 2014

PRA LER E PENSAR


Abertura oficial das Olimpíadas de Inverno de Sochi, "as piores de todos os tempos" já antes mesmo de começar. Até aí tudo bem: as de Londres em 2012 já levaram o caneco, juntamente com Pequim (2008) e Atenas (2004). É que falar mal das coisas parece dar um IBOPE danado hoje em dia.

Mas a crítica à Sochi 2014 vem aditivada desde que a Rússia, ao publicar uma lei visando proteger suas crianças da sexualização precoce promovida pela (falta) de cultura disseminada pela mídia de massas, foi declarada inimiga mundial dos gays.

Intrigado com o fato, o repórter independente norte-americano Brian M. Heiss fez o que NINGUÉM na grande mídia, ou do público em geral, se deu ao trabalho de fazer: arregaçou as mangas e tratou de investigar. (Aqui a íntegra do documento.)

Ao invés de uma matéria, acabou escrevendo uma tese, que pode ser lida em sua íntegra (em inglês) aqui. São 73 páginas de bom jornalismo, aquele que mostra os fatos e estabelece comparações sem induzir nossas conclusões; mais 56 páginas de documentos legais - entre eles a Lei Federal "A Proteção das Crianças de Informação Danosa à sua Saúde e Desenvolvimento" aprovada em 24 de dezembro de 2010 sem que nenhum veículo da mídia internacional sequer fizesse menção - o furor só emergiu depois da Rússia punir algumas empresas dando a entender que a lei era mesmo pra valer.

Eu li a matéria e recomendo a todos que têm um cérebro e estão habituados a usar. Leituras como essa servem de antídoto para a doutrinação maçiça a que somos submetidos 24 horas por dia; revelando o princípio sórdido do lucro pelo lucro como imperativo universal de uma sociedade que não poderia se importar menos com suas próprias crianças, seu próprio futuro.

Resumidamente, a análise de Heiss indica que:

A histeria focou na expressão "proteger as crianças da propaganda de relações sexuais não tradicionais". Como se só as relações homossexuais fossem "relações sexuais não tradicionais".

De fato, se alguém neste mar de desinformação se desse ao trabalho de investigar antes de abrir a boca, iria descobrir que na Rússia o direito PESSOAL à opção sexual é garantido POR LEI desde 1993 - ela segue sendo CRIME em 12 estados norte-americanos.

Tampouco lá a opção sexual serve de base para a demissão - o mesmo não se pode dizer dos bastiões da democracia. Aliás, estatisticamente, os gays sofrem mais agressões e crimes de ódio nos Estados Unidos da América do que na Rússia.

Se é assim, então porque todo esse furor?

Simplesmente porque o alvo dessa lei são as grandes corporações, com seus produtos e propaganda que imbecilizam e sexualizam precocemente nossas crianças. É uma lei que foca no SHOW BUSINESS: 

"Esta lei, falando francamente, é mais endereçada ao show business. A lei se dirige à mídia de massa e ao show business. Esta é uma das leis no complexo de medidas que estão sendo tomadas no campo do show business.", afirma o deputado Alexei Mitrofanov.

Por quê?

Porque na Rússia o entretenimento é um mercado de 178 BILHÕES de dólares. São 1,2 bilhões de dólares só na venda de ingressos para o cinema, e mais de 10 bilhões de dólares em publicidade (dados de 2012). E a distribuição de videogames segue um ritmo de crescimento médio de 11% ao ano, devendo chegar a 1,8 bilhões em 2017.

Se o "show" da Beyoncé no Grammy tivesse acontecido na Rússia, a gravadora e os promotores do evento pagariam multas pesadas e a cantora, além da multa, ainda prestaria serviços comunitários por duas semanas.

E isso não interessa às grandes corporações, que "coincidentemente" controlam todas as gigantescas redes internacionais de notícias. Ainda mais num momento de estagnação, quando não de retração, de seus mercados tradicionais. Os únicos mercados em expansão somos nós, os emergentes.

O que concluo de tudo isso?

Precisamos acordar para o fato de que nosso bem-estar não é do interesse das grandes corporações. Que qualquer iniciativa para proteger princípios, ética e valores locais, ou que simplesmente interfira nos interesses econômicos das grandes corporações; será combatida com ferrenhas campanhas difamatórias de anti-propaganda, insuflando "manifestações"  que nada mais são do que eventos midiáticos orquestrados para gerar imagens emocionalmente impactantes para bloquear de antemão qualquer tentativa de argumentação racional. Quem assistiu ao filme sobre a Hannah Arendt sabe exatamente do que eu estou falando.

A essa altura do campeonato é imperativo compreender que a máquina do sistema de produção para as massas é um organismo que cresceu tanto em tamanho e complexidade que não comporta sequer uma mínima adaptação às especificidades de povos e culturas. Sua estratégia de sobrevivência é o gigantismo do rolo compressor que equaliza a todos dentro de uma margem pré-definida de gostos e valores.

Dentro desse sistema de produção em larga escala, pluralidade é sinônimo de prejuízo: mais que diversificar a linha de produção adequando-a a públicos diversificados, o sistema se dedica à erradicação da diversidade, moldando o público ao padrão pré-determinado de seus produtos.

13 de jul. de 2013

HÁ PERIGO NA ESQUINA


Tenho observado recentemente e com muita apreensão o recrudescimento das animosidades e provocações nas redes sociais. Enquanto uma boa parte dos internautas se alterna entre suspirar, reclamar, ignorar, bloquear ou mesmo evitar o acesso às redes sociais para não se incomodar, outra boa parte vem se digladiando e trocando insultos e acusações num lamentável espetáculo de crescente virulência.

Isso vem fazendo particularmente do Twitter e do Facebook territórios bastante hostis quando não estressantes; quando o propósito é justamente o contrário.

Não digo que devamos sair por aí jogando confete e cantando marchinhas de carnaval como se nada tivesse acontecendo, até porque vivemos um momento extremamente delicado na vida cívica deste país, pois todas as instituições estão em cheque: executivo, legislativo, judiciário, mídia e órgãos representativos de classe que são os pilares em que se assenta constitucionalmente nossa república são alvo não mais de mera desconfiança, mas de aberta hostilidade.

Mas muito, muito mais do que gritar, xingar e espernear; precisamos refletir.

E, acima de tudo, deixar de lado as disputas sobre qual cartilha ideológica é a "melhor" e nos unirmos por uma causa maior que é o nosso país, que apenas por brevíssimos momentos na História pareceu saber quem era e para onde pretendia ir.

Temos a chance histórica de mostrar a cara do Brasil e erguer finalmente uma nação, mas a estamos desperdiçando num bate-boca inflamado que não vai nos levar a lugar algum.

Honestamente, não me importa se você é de "direita" de "esquerda" ou de lado nenhum. Já vivi o suficiente para saber que quando a gente senta e conversa civilizadamente, olho no olho, com pessoas e como pessoas, acaba encontrando vários pontos em comum.

A quem serve nossa desunião? Que interesses estão se beneficiando deste momento de confusão generalizada?

Enquanto o país inteiro critica os políticos, está ocorrendo um aumento generalizado nos preços dos produtos que consumimos diariamente. Há desabastecimento? As fábricas estão fechadas? A economia do país parou?

Não. Todo mundo segue produzindo e consumindo como sempre; mas enquanto nos ocupamos em culpar os políticos por tudo de errado que há neste mundo (sim, eles têm de fato muita culpa no cartório e merecem toda a execração pública de que são alvo); os donos dos supermercados, das bombas de combustível, prestadores de serviços e os bancos estão aproveitando para lucrar um pouquinho mais.

Por quê o litro de leite a mais de dois Reais? Por acaso as vacas enfiaram máscaras do Guy Fawkes e se declararam em greve por tempo indeterminado?

Como é que o valor das mesmas compras que eu faço toda a semana há anos de repente saltou mais de 40%? É a volta da inflação?

Se fosse, os juros dos bancos também teriam disparado, porque se há alguém neste país bem atento ao valor do dinheiro, esse alguém é um banqueiro. Mas não: as taxas de juros subiram 0,5%.

E ninguém reclama.

De quê adiantam menos 20 centavos na passagem de ônibus, se estamos pagando mais 150 Reais na conta semanal do supermercado? Se a hora do estacionamento na área central subiu em média 20% nas últimas semanas?

Adiantam para os donos dos supermercados, dos estacionamentos, dos postos de gasolina e por aí a fora; porque a insatisfação já está condicionada a culpar a política e os governos por tudo que acontece de errado, como se se tratassem de entidades estranhas à própria sociedade; quando na verdade nada mais são do que um espelho apontado para nossas caras sobre tudo que há de errado no dia-a-dia em nossas vidas privadas.

Estou falando de supermercados, bombas de gasolina, estacionamentos e etc para dar um exemplo de como as raposas sabem se aproveitar sempre que o galinheiro pega fogo.

E estamos agindo como as galinhas: correndo e gritando para todos os lados sem noção, sem razão, sem rumo e sem direção; batendo asas e nos bicando enquanto as raposas fogem com nossos pintos e pisoteiam nossos ovos.

O momento é sério.

Digo mais: gravíssimo. Porque ao mesmo tempo que desconfiamos como sociedade de tudo que está estabelecido na política, estamos por demais polarizados para apresentar novos nomes e alternativas com um mínimo de consenso mesmo dentro das mesmas correntes ideológicas.

Não estamos dialogando, mas trocando ofensas como torcidas de futebol enquanto os jogadores, satisfeitos com o empate, ficam no campo fazendo corpo mole e esperando pra ver se o juiz apita o final da partida ou chama a polícia para separar as torcidas.

(a ser continuado)

6 de jul. de 2013

O EXEMPLO DA ISLÂNDIA


Os acontecimentos recentes na Islândia não estão sendo noticiados em nenhum grande veículo de comunicação.

Porque se tratam do restabelecimento de um sistema de governo legitimamente participativo e democrático. E isso assusta os plutocratas que se pretendem senhores absolutos do planeta.

Todo mundo lembra quando em plena "crise" de 2008 foi alardeado que a Islândia estaria quebrada.

E na verdade estava.

Mas, ao contrário da Grécia, de Portugal e da maioria do outros países afetados pela orgia dos bancos que deflagrou a dita "crise" de 2008; a  Islândia hoje vai muito bem obrigada.

Para quem não lembra, vamos recordar:

Tudso começou logo após a virada do milênio, mais precisamente em 2003, quando seguindo a moda mundial, os islandeses aderiram ao neo-liberalismo elegendo um governo de centro-direita que logo tratou de privatizar os três bancos do país (Landsbanki, Kaupthing Bank e Glitnir). Tão logo trocaram de mãos, as três instituições foram tratar de aumentar os lucros atraindo investidores estrangeiros com a oferta de investimentos online com altas taxas de retorno - só não contavam para ninguém que essas altas remunerações só eram possíveis porque estavam investindo pesado nos papéis podres do Lehman Brothers.

Por cinco anos a ciranda funcionou e fez os islandeses ricos e prósperos.

Mas quando a bolha estourou em 2008, os bancos islandeses foram à falência e a moeda nacional, o Kroner desvalorizou 85% em relação ao Euro da noite para o dia.

O país quebrou.

Desesperado, o Primeiro Ministro de então, Geir Haarde, negociou um empréstimo de 2,5 milhões do FMI, ao qual os países do Norte europeu adicionaram outros 2,5 milhões.

Em troca, tanto o FMI como os vizinhos do Norte exigiam que o governo islandês implementasse medidas drásticas (porque não dizer draconianas) impondo ao país a mesma cartilha de privatizações e cortes em investimentos públicos que se vê na Grécia, em Portugal, na Espanha e tantos outros países - e que a gente aqui no Brasil conhece bem, porque nos manteve no atraso de dívidas impagáveis, baixo crescimento, investimentos em serviços públicos próximos ao 0, inflação galopante e virtual desmonte do setor produtivo nacional (à exceção da mineração e agropecuária) por mais de 40 anos.

Só que os islandeses não toparam pagar esse mico.

Os 320 mil cidadãos da pequena ilha foram às ruas, armaram barricadas e meteram a boca no trombone até derrubar o governo.

Uma coalizão de esquerda foi então eleita em 2009.

Mas esse novo governo, apesar do discurso anti-liberal, mostrou fraqueza ao ceder à pressão internacional pelo imediato pagamento de 3 milhões de dólares; propondo como solução um imposto de 100 Euros a serem pagos mensalmente por cada cidadão islandês pelos próximos quinze anos (os juros eram de 5,5%).

À ideia de que cada cidadão deveria pagar do próprio bolso uma dívida contraída pela irresponsabilidade administrativa de instituições privadas, o povo respondeu com um sonoro NÃO.

Ouvindo o clamor das ruas, o chefe de Estado Olafur Ragnar Grimsson recusou-se a ratificar a lei que tornaria os cidadãos da Islândia responsáveis diretos pelos débitos contraídos pelos bancos privados; e convocou um referendo.

Obviamente a pressão internacional se intensificou sobre a Islândia. Holanda e Reino Unido ameaçaram sérias retaliações que isolariam o país.

Enquanto os islandeses se preparavam para votar, banqueiros internacionais aumentaram a pressão e numa verdadeira campanha de terror ameaçaram bloquear os auxílios do FMI; o governo da Inglaterra ameaçou congelar as contas de cidadãos islandeses nos bancos do Reino Unido. E muito mais, como fica explícito no relato de Grimsson:

Nos disseram que se recusássemos as condições da comunidade internacional, nos tornaríamos a Cuba do Norte.

E ele próprio acrescenta sabiamente:

Mas se tivéssemos aceitado, nos tornaríamos o Haiti do Norte.

No referendo realizado em março de 2010, 93% dos cidadãos islandeses votaram contra o pagamento do débito.

O FMI imediatamente congelou as ajudas.

Mas o pequeno país não se intimidou.

Ao contrário, movido pelo renovado vigor nacionalista, enquanto a nação inteira arregaçava as mangas para trabalhar na reconstrução da economia do país, foram iniciadas investigações civis e penais contra os responsáveis pela crise financeira culminando com o pedido de prisão à Interpol de diretores e presidentes dos bancos responsáveis pela quebradeira.

E não parou aí: a essa altura, a população queria mais mudanças e garantias; e decidiu que era hora de revisar a Constituição do país a fim de garantir que ficasse para sempre livre do poder exagerado das finanças internacionais e do dinheiro virtual. (A Constituição então em vigor era praticamente uma réplica da Constituição da Dinamarca, de quem a Islândia se tornou independente em 1918: a única alteração feita fora a troca da palavra "rei" por "presidente".)

Para redigir essa nova Constituição, ao invés de políticos, foram eleitos 25 cidadãos, dentre 522 adultos sem ligações com qualquer partido político recomendados por pelo menos 30 outros cidadãos.

E mais: o documento foi escrito via internet. As reuniões dos constituintes foram todas transmitidas ao vivo integralmente e abertas a participação e comentários de qualquer cidadão do país.

Esta nova Constituição será submetida ao parlamento para aprovação depois das próximas eleições.

A Islândia não só sobreviveu à "crise" de 2008, como se reinventou como país.

Isso, porque soube se unir e impedir que o grande capital internacional praticasse no país o mesmo estelionato que vem praticando contra as populações da Grécia e de Portugal (para ficarmos nos exemplos mais óbvios) que estão privatizando a preço de banana setores estratégicos e rentáveis das suas economias para o pagamento de dívidas contraídas por bancos privados contra bancos privados.

3 de jul. de 2013

Yo, DJ!


Demorou, mas saiu!

You, DJ! - Barbies Versus Panda é um vídeo de animação dirigido, roteirizado, produzido, animado e editado por esta que vos fala e que, somadas as horas exclusivamente dedicadas em sua produção, levou 4 meses para ser concluído.

Espero que gostem.

Aqui, a versão do mesmo vídeo com as legendas em português:


29 de jun. de 2013

A SÍNDROME DE CASSANDRA


Devota servidora de Apolo, Cassandra recebeu o dom da previsão ainda criança quando uma serpente lambeu seu ouvido enquanto dormia no templo de Apolo. Eventualmente a menina cresceu tornando-se uma jovem de exuberante beleza e tão dedicada ao deus que Apolo se apaixonou e lhe concedeu o dom da profecia. Mas quando Cassandra o rejeitou, Apolo lançou a maldição de que ninguém jamais viria a acreditar nas profecias ou previsões da jovem.

Dali em diante, Cassandra foi tida como louca e suas inúmeras previsões de catástrofes e desgraças foram desacreditadas, ignoradas e até ridicularizadas. Tróia só foi destruída porque Príamo ignorou suas desesperadas súplicas para que destruísse o cavalo engendrado por Ulisses.

É desse capítulo da mitologia grega que deriva o termo "Síndrome" ou "Metáfora de Cassandra", expressão cunhada pelo filósofo francês Gaston Bachelard em 1949 numca crítica racional à crença popular de que eventos podem ser previstos ou conhecidos de antemão.

Embora Bachelart e vários outros filósofos e estudiosos tenham produzido ampla argumentação em sentido contrário à prática; a verdade é que ela é largamente empregada como "verdade científica" por governos e instituições privadas. O sistema financeiro, espinha dorsal da economia mundial atualmente, recorre à "futurologia" de fórmulas matemáticas e pesquisas de opinião para divisar suas estratégias de lucro.

Se olharmos de perto, o marketing nada mais é do que a prática da "futurologia" com base em procedimentos científicos comprovados.

Isso gera uma dissociação estrutural entre a realidade objetiva e o cenário de realidade que o capital busca estabelecer para ampliar ou manter mercados instrumentado por uma pseudo-ciência especializada em elaborar teorias baseadas em dados subjetivos apurados objetivamente.

Exercícios especulativos como os do Relatório de Cassandra servem de base para que marketeiros de todo o mundo elaborem estratégias de comunicação para marcas e instituições (inclusive as governamentais).

E no fogo cruzado das campanhas publicitárias desenvolvidas a partir de especulações baseadas numa amostra limitada cultural e geograficamente do universo (as pesquisas iniciais limitam-se ao território norte-americano, sendo posteriormente repetidas em outros pontos geográficos), a perspectiva histórico-cultural que molda a consciência cívica, a ética e, porque não dizer, a moral das novas gerações e seu exercício vem sendo crescentemente substituída pelo consumo como forma última de manifestação do ser no mundo.

Um exemplo claro de como operam esses mecanismos é visível no seguinte documento elaborado pelos "experts" do Grupo de Inteligência, uma divisão da Creative Artists Agency (CAA); empresa privada de pesquisa com foco na juventude e dedicada a identificar emergentes movimentos de cultura popular e traduzi-los em conhecimento relevante para empresas, marcas e instituições. Há mais de 15 anos o Grupo de Inteligência publica trimestralmente o Cassandra Report, o principal estudo cultural em curso sobre jovens consumidores e tendências culturais:


Para publicação imediata,
22 de Maio de 2013


Grupo de Inteligência: Cassandra Report Retrata as Crianças Independente e Rebeldes com Causa da Geração Z

Los Angeles, CA - Conforme o novo relatório Cassandra que pesquisou crianças de 7 a 13 anos e seus pais, a Geração Z pode ser jovem, mas seu pragmatismo e independência a faz a geração mais desafiadora para os marketeiros. Tendo crescido constantemente conectados, os membros da Geração Z são práticos, motivados, curiosos e auto-suficientes, em grande parte devido à tecnologia. Como os primeiros verdadeiros "nativos digitais", eles sentem-se poderosos por seu acesso à informação e buscam influenciar os produtos e conteúdos que consomem.

"As crianças da Geração Z têm conversas online sobre marcas muito antes das companhias sequer cogitarem-nos como alvos, tornando crítico colocar-se à frente entendendo suas vontades e necessidades", disse Jamie Gutfreund, Chefe de Estratégia do Grupo de Inteligência. "Aqueles que estão assombrados pelos irmãos mais velhos da Geração Y acharão esta geração de pragmatismo rebelde ainda mais potencialmente elusiva, pois eles exigirão relaçãos ainda mais íntimas e honestas com as marcas, artistas e instituições que seguem."

Baseado no Relatório, que inclui 800 entrevistas online com crianças de 7 a 13 anos e seus parentes de todo o país, o Grupo de Inteligência lançou 10 dicas de marketing para a Geração Z:

1 - Toque seu espírito empreendedor: os Z's têm arranque automático, estão ansiosos para causar um impacto, uma mudança e deixar um nome para si. Marcas podem ser um recurso para percepções e investimentos que lancem esses jovens num caminho inovador pioneiro.

2 - Ouça e responda a eles: os Z's são multitasking, vários pensamentos simultaneos os mantêmconectados a várias correntes de conteúdo ao mesmo tempo - e eles esperam que as marcas sigam o ritmo de sua conversa fogo-rápido, consumo de conteúdo e perguntas e respostas. Marketeiros precisam abraçar e incorporar a virada em tempo real que os Z's almejam.

3 - Convide-os para em seu processo de decisão: o ritmo em tempo real da interação online levou os Z's a esperar serem ouvidos pelas marcas, seja quando reclamam, perguntam, elogiam ou sugerem alguma coisa. Essa geração quer sentir que seus "inputs" têm impacto, e os Z's amam ter suas ideias consideradas e realizadas.

4 - Deixe-os tentar antes de comprar: os Z's são hiper-pesquisadores e caçadores de barganhas, e esperam poder testar nossos produtos antes de se comprometerem com qualquer coisa. Marcas deviam prover a esses experientes jovens consumidores oportunidades de testar, brincar e vivenciar pré-compras tanto virtualmente (por realidade aumentada) como fisicamente (por períodos de teste e ofertas de amostras).

5 - Certifique-se de estar inovando e evoluindo digitalmente: os Z's vêem pouca distinção entre os mundos físico e digital. Eles buscam similar engajamento em ambos. Marketeiros deveriam começar a divisar formas de integrar mais profundamente suas comunicações físicas e digitais, criando produtos, conteúdo e jogos que exibam elementos tangíveis e virtuais trabalhando juntos e bem.

6 - Encoraje-os a serem criativos com seu produto: os Z's estão sempre em busca de novas oportunidades para exibir suas mais inventivas, belas e brilhantes criações. Marcas deveriam fornecer plataformas nas quais eles possam compartilhar seus projetos, ter ideias e inspiração e interagir com jovens com o mesmo sentimento, e proeminentemente exibir seus melhores trabalhos para lhes dar um momento sob os holofotes.

8 - Inspire-os a mudar o mundo: a Geração Z considera que é dado e uma necessidade reciclar, conservar e fazer escolhas verdes, e está participando alguma forma de serviço comunitário através da escola, família ou igreja em números disproporcionais. Marcas podem ser grandes fontes de informação e motivação para que esses jovens melhores suas escolas, comunidades e o mundo.

9 - Construa logo um relacionamento: como confiança e transparência são marcadores sociais de grande importância para a Geraçao Z, marketeiros deveriam envolvê-los em seu nível e oferecer experiências que eles possam apreciar em sua idade atual - mesmo se o que estão vendendo não pareça iminentemente aplicável a crianças. Ganhar sua confiança agora terá poder aglutinados quando esses jovens indivíduos ingressarem na idade adulta.

10 - Mostre o lado luminoso: a Geraçao Z pode ter nascido realista, mas eles ainda desejam e respondem a mensagens de esperança e otimismo. Marcas podem realçar as perspectivas dos Z's mostrando os lados mais iluminados da vida, encorajando-os a encontrar e compartilhar esses momentos luminosos por si mesmos. Mensagens de marketing podem lembrá-los que em um mundo às vezes assustador eles ainda podem encontrar oportunidades e pessoas positivas.


(Foto: estátua de Cassandra no Parque do Louvre, em Paris, em 2012, por Paula Figueiredo)

23 de jun. de 2013

CARLA TOLEDO DAUDEN, (MAIS) UMA BRASILEIRA


Carla Toledo Dauden é uma jovem paulista que mudou com a família para Florianópolis aos 12 anos buscando levar uma vida mais pacata e humana depois que seu pai somou-se à infindável lista de vítimas da violência brutal na maior cidade da América do Sul. Como queria ser cineasta e a família podia ajudar, mudou-se para a Califórnia, onde estudou cinema na California State University, em Long Beach; destacando-se como aluna e recebendo vários prêmios. Sim, a Carla não tem só a "sorte" de ter publicado um vídeo que falava exatamente o que todos nós tínhamos entalado na garganta (para refrescar a memória, leia aqui um post do Juca Kfouri de 5 de outubro de 2010 sobre entrevista do presidente do Internacional, Vitorio Piffero, a Juremir Machado da Silva, do Correio do Povo: http://blogdojuca.uol.com.br/2011/10/o-cartel-de-empreiteiras-da-fifa/); trata-se de um vídeo bem produzido, com uma excelente fotografia e narrado numa linguagem simples e direta.

Meu único senão é que o vídeo passou praticamente batido no lobby das empreiteiras amigas da FIFA que vão seguir explorando estádios pelo Brasil 18 anos depois da copa ter passado. Porque, nas palavras do próprio Juca Kfouri:

A Copa do Mundo precisa dar lucro a um grupo de parceiros.

E ele disse mais, lá atrás, em 2010, quando essa massa nas ruas poderia ter mudado alguma coisa:

Na África, já se cogita derrubar alguns dos estádios construídos para a Copa de 2010.
No Brasil, só cartolas, alguns políticos e empreiteiras ganharão com a Copa do Mundo.
O Inter e o Grêmio têm tudo para sair como perdedores.
Serão perdedores felizes.
Farão papel de modernos.
Moderno é pagar aluguel para morar na própria casa.
É o neoliberalismo da CBF e da Fifa
Um neoliberalismo antigo, o dos negócios bons para alguns e ruins para muitos.
(grifos meus)

Tendo já ultrapassado os 2 milhões de hits no YouTube, espero que o vídeo ajude a impulsionar a carreira dessa garota que gostaria que voltasse logo ao Brasil para juntar sua força e talento às dezenas de milhares de novos roteiristas, diretores, técnicos e atores que despejamos nas ruas todo o final de semestre para acabarem vendendo calças ou trabalhando em comerciais de televisão; porque a produção cinematográfica cujos projetos conseguem financiamentos e incentivos oficiais no Brasil é um clubinho fechado no qual as verbas são divididas entre os mesmos de sempre.

Talvez seu talento e senso de oportunidade, ajude a dar visibilidade à luta anônima e diária dessas dezenas de milhares de jovens que só querem poder sobreviver da profissão que escolheram livres do meretrício de trabalhar para as grandes redes de televisão.

Essa é a minha sugestão a você, Carla: converse com seus colegas de profissão aqui e faça outro vídeo denunciando a tristeza que é ter que fazer cinema do próprio bolso num país que investe bilhões em novelas patéticas e propaganda.

Confesso, Carla, que logo que vi o vídeo, formei uma ideia equivocada a seu respeito. Mas depois de ler várias entrevistas, fui entendendo melhor quem é você, o que pensa, e imagino fazer uma ideia do que quer.

Minha opinião começou a mudar quando perguntada por Ruth Aquino da Revista Época sobre uma opinião acerca dos movimentos, você respondeu lucidamente:

Como eu não tenho envolvimento direto com as manifestações, acho até irresponsável eu dar a minha opinião. Tento evitar bandeiras. Quando fiz o vídeo, bem antes da onda de protestos, queria só fazer minha parte e lutar para que nossas vozes fossem ouvidas. Era só esse meu papel no jogo. Mostrar que Brasil não é só futebol e que há problemas. Queria fazer pressão para que mudanças ocorram. Muitos dos manifestantes me parecem perdidos. E agora você não sabe mais quem está a favor de quê. Tem gente usando o meu vídeo para argumentar que o governo tem de cair. Botando palavras na minha boca. Tem gente falando que trabalho para a CIA e os Estados Unidos me pagaram para fazer esse vídeo!!! Não quero promover nenhum boicote à Copa. Estão postando coisas muito extremistas no meu Facebook. O que eu acho mesmo é que o povo tem que subir ao governo e não que o governo precisa cair. A paz tem que ser mantida a todo custo. Espero que todos se conscientizem disso e tenham bom senso. Quem gosta do Brasil não quer uma guerra civil.

(Grifos meus)

E tem a carta que você divulgou.

Acredito concordarmos que se tivesse sido lida por pelo menos metade das pessoas que andam distribuindo o vídeo, muita bagunça e violência poderiam ter sido evitadas.

Tomo a liberdade de compartilhar aqui, para que pelo menos as poucas pessoas que leem o meu blog a entendam melhor:

Oi gente!

Estou acompanhando com um misto de surpresa e temor o que vem acontecendo por conta do vídeo que postei no YouTube. Além de ser muito grata a todos aqueles que compartilharam e que têm contribuído com o debate construtivo, gostaria de pontuar algumas coisas importantes. Leiam isso como uma tentativa de me posicionar diante de críticas e, sobretudo, diante do uso do meu vídeo por parte de grupos que, definitivamente, não me representam.

– Repudio, veementemente, qualquer discurso que coloque em risco o Estado Democrático de Direito;

– Não sou favorável ao impeachment de ninguém. Não se utilize de meu vídeo defender essa ideia;

– Não faço parte nem simpatizo com nenhum partido político ou movimento social, apesar de não ser apolítica e de ter bastante clareza sobre minhas convicções ideológicas;

– Minha iniciativa não tem ligação alguma com os protestos contra o aumento da tarifa, embora eu seja totalmente solidária à causa, como a todas as outras que, de alguma maneira, e através dos movimentos sociais, tentam reverter as históricas injustiças sociais e a desigualdade em nosso País;

– A publicação do vídeo apenas coincidiu com os protestos. Confiram a data da postagem;

– Como explico no início da peça, uso o inglês apenas porque meu objetivo primeiro era falar com amigos e colegas americanos e do mundo, com a intenção de mostrar a realidade do nosso país e trazer atenção internacional ao tema. Consequentemente, essa atenção gera uma pressão maior para que mudanças ocorram.

– Por último, e principalmente, não tenho as respostas para tudo o que está acontecendo, não sou política ou ativista, apenas quis manifestar meus pensamentos. Acreditem, felizmente, nem tudo nesse mundo vem a partir de interesses financeiros ou políticos. Muito mais preparados para responder a essas perguntas estão as diversas organizações e movimentos sociais legítimos que estão lutando há bastante tempo, e diariamente, para que a Copa e as Olimpíadas não passem por cima dos direitos dos brasileiros.

Agradeço enormemente se puderem ajudar a espalhar essa mensagem e peço que não usem vídeo para causas que não condizem com as ideias acima.

Carla Toledo Dauden 

22 de jun. de 2013

AFINAL, QUE QUE É ESSE TAL DE "ANONYMOUS"?


Ainda busco uma explicação para os excessos, e não engulo o discurso oportunisticamente paternalista de que os vândalos são garotos revoltados com a falta de liberdade, até porquê tem muito menino e menina de classe média instigando a baderna e quebrando vidraça por aí.

Quanto mais observo, mais me parece que a frase do Samuel Johnson sumariza o que se vê por aí, particularmente quanto à larga apropriação indébita tanto do nome como do símbolo do Anonymous pelos mais diversos matizes ideológicos.

Um pouco de história faz-se necessário para contextualizar essa bagunça toda:

O Anonymous surgiu a partir de um grupo de amigos virtuais, em sua maioria usuários do forum /b/ no 4Chan, que a certa altura, indignados com a proliferação de material de pornografia infantil partiu para a ação, seguindo e expondo a identidade de pervertidos na internet.

O próximo alvo foi a cientologia, depois que o culto resolveu processar o Youtube pelos direitos autorais de um vídeo com Tom Cruise vazado pelo canal. Revoltada com a censura, a rapaziada deflagrou o "Projeto Chanology" que consistia em ataques de negação de serviço e trotes por telefone às sedes do culto espalhadas pelo mundo a fora. Quando o FBI começou a caçar e intimidar membros do grupo, numa declaração de guerra aberta, o Anonymous postou no Youtube o famoso vídeo "Mensagem para a Cientologia" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Message_to_Scientology.ogv), e logo em seguida, o vídeo "Call to Action" foi publicado também no YouTube, chamando usuários do site para manifestações em frente às sedes da cientologia pelo mundo a fora. Sabendo que o culto empreenderia uma violenta campanha de retaliação, acharam prudente aconselhar às pessoas dispostas a comparecer a essas manifestações que usassem máscaras para proteger suas identidades.

Como no 4chan todos os usuários postam como "Anonymous", a escolha do nome foi inevitável.

Isso foi bem antes de virar "legião", tanto que o refrão era:

Nós [Anonymous] somos apenas um grupo de pessoas na internet que precisa — de um tipo de saída para fazermos o que quisermos, que não seríamos capazes de fazer numa sociedade normal. ... Essa é mais ou menos a ideia. Faça como quiser. ... Há uma frase comum: 'faremos pelo lulz*. (*plural de "lol", que significa "laugh out loud", ou rindo às gargalhadas).

A adoção da máscara de Guy Fawkes que atualmente caracteriza o movimento veio em decorrência de um processo de crescente identificação do grupo com o personagem dos quadrinhos cult (posteriormente vertidos para a telona), pela agregação de mais e mais adeptos com crenças, pleitos e ideologias próprias expandindo não só seus objetivos mas sua área de atuação.

É só neste segundo estágio que o aforismo nós somos Anonymous. Nós somos Legião. Nós não perdoamos. Nós não esquecemos. Esperem por nós foi cunhado.

Para dar uma ideia da dimensão atual do Anonymous, em 2011 ele esteve envolvido diretamente na Primavera Árabe (Egito e Tunísia), na Malásia, na Síria, no Occupy Wall Street (e todos os eventos do gênero), na Operação DarkNet (que operou no submundo da internet fechando 40 sites de pornografia infantil, revelando de quebra as identidades de mais de 1500 pedófilos ao FBI e Interpol), na Nigéria, nos protestos contra a SOPA (Stop Online Piracy Act), na Polônia, contra o ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement); e agora chega ao Brasil no rastro do movimento pelos 20 centavos.

A única bandeira que se pode atribuir ao Anonymous é o princípio anarquista do "ninguém delega a palavra a ninguém". Essa é uma via de mão dupla: assim como o Anonymous não representa nenhum grupo específico, nenhum grupo, crença ou partido pode se alçar ao direito de se proclamar legítimo representante do Anonymous.

Mas há um porém, particularmente no que tange a essa balbúrdia que tomou de assalto a sociedade brasileira: não é porque não se alinha a este ou aquele partido que o Anonymous carece de conteúdo político.

Mas o que busca o Anonymous, afinal?

O Anonymous nada mais busca do que a aplicação prática do que está escrito na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América:

(...) todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo(...)

Simples assim. Mas as implicações são extensas.

1 - a declaração refere-se a "homens dotados pelo Criador" - isso exclui empresas e corporações, pois estes são entes artificiais criados com o objetivo precípuo do lucro mesmo que em detrimento do bem comum; atribuir-se a essas entidades o poder de definir políticas públicas (i.e.: influenciar a legislação criando penas de privação de liberdade em qualquer nível) é uma contratitio in terminis. Ou, curto e grosso: o que pertence ao âmbito comércio não tem legitimidade para legislar em causa civil.

2 - Vida, Liberdade e Busca da Felicidade são DIREITOS INALIENÁVEIS (não podem ser transferidos, delegados, removidos, divididos, alterados, manipulados e por aí a fora); ou seja, qualquer governo, empresa ou instituição que atente contra esses direitos inerentes à condição de ser humano é, por extensão, inimigo da humanidade.

3 - governos são instituídos pelos homens e para os homens; não para empresas ou corporações.

4 - qualquer governo que se torne destrutivo dos únicos fins a que deve se propor, que são a promoção da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade dos homens a quem representa deve ser alterado, abolido ou destituído.

Curto e grosso, o Anonymous é a resposta da nova geração à massificação imposta pelo poderio econômico manipulador da política e da opinião pública que reduz indivíduos à condição de unidades produtoras-consumidoras de bens e ideias alienantes dos valores básicos inerentes à condição humana que são a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

Qualquer "anônimo" que levantar a voz em nome de interesses outros que a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade, não é um Anonymous.

Se pracitar atos extremos de violência não é um Anonymous, pois está atentando contra a Vida.

Se levantar a voz contra qualquer bandeira, não é um Anonymous, pois é contrário à Liberdade.

Se seu discurso é o do ódio, da discriminação, seu discurso é contrário à Busca da Felicidade.

Ele é, na melhor das hipóteses, só mais um anônimo confuso sobre de onde veio e para onde vai.

Por isso está hoje nas ruas por mais baderna e menos bandeiras.


6 de jun. de 2013

OLHA ELE AÍ DE NOVO


Fique ligado: o cavalo de tróia Zbot, também conhecido como ZEUS que no passado já causou o desvio de cerca de 800 milhões de dólares, e um dos malwares mais perigosos e difíceis de detectar voltou a circular no Facebook.

Diferentemente de outros cavalos de tróia, o Zbot não é um programa desenvolvido por um hacker ou grupo de hackers. O Zbot é, na verdade, um kit de construção de malwares que permite a qualquer pessoa com algum conhecimento de programação o desenvolvimento de seu próprio cavalo de tróia.

E é considerado um negócio sério por seu criador, pois é distribuído com um sistema de licenciamento que só permite a cada cópia ser rodada em uma única máquina e regularmente atualizado (a versão sendo comercializada atualmente é a 1.3.4.x). O que o torna o primeiro software comercial de construção de vírus. E aparentemente bem rentável, pois por 3 mil dólares, qualquer um já pode baixar a base do programa e seus "plugins" ou "extensões" de podem chegar a custar mais de 30 mil dólares.

É por isso que não existe um Zbot, mas centenas de variações, talvez milhares circulando por aí, o que torna praticamente impossível sua erradicação, pois para cada atualização dos antivírus, novas versões do Zbot começam a circular.

Sua fonte primária de disseminação são emails, via de regra mimetizando emails de algum site ou instituição confiável dizendo que há problemas com seu login e pedindo que você clique num link. Como grande parte das pessoas não se dá ao trabalho de checar para onde o link aponta, acaba clicando e o trojan se instala em sua máquina antes que tenha tempo de desconfiar.

Eis uma relação das "capacidades" do Zbot até onde se sabe:

  1.  roubar dados inseridos em formulários HTTP
  2.  roubar senhas protegidas no Windows
  3.  roubar dados de certificação digital
  4.  roubar dados de login em FTP (transferência de arquivos) e POP (email)
  5.  roubar ou deletar HTTP e cookies de Flash
  6.  alterar o código-fonte de páginas dos sites visados para acessar dados de usuário
  7.  redirecionar usuários dos sites originais para cópias maliciosas
  8.  capturar telas e código-fonte de sites autênticos visitados pela máquina infectada
  9.  fazer o upload de arquivos com dados sensíveis da máquina infectada
  10. alterar arquivosa locais (%systemroot%\system32\drivers\etc\hosts)
  11. baixar e executar programas arbitrariamente
  12. deletar chaves de registro tornando o computador inutilizável

Uma vez instalado, o Zbot vasculha seu computador coletando todas as senhas (mesmo as protegidas) e fica na tocaia, sendo ativado a cada vez que você acessar alguma das páginas que ele está programado para monitorar. Aí ele pode tanto copiar todos os dados que você digitar, como interceptar a página original inserindo campos ou alterando completamente formulários online, como, por exemplo, acrescentando um campo pedindo sua data de nascimento num formulário de login que originalmente só pedia nome de usuário e senha.

Como se não bastasse, o Zbot é capaz de se comunicar com seu controlador e executar algumas "tarefas" adicionais como fazer o download e upload de arquivos, servir de zumbi em ataques coordenados a sites (como esse que a gente vê todo o dia contra instituições e sites governamentais), reiniciar ou desligar o computador, ou mesmo alterar ou deletar arquivos de sistema tornando impossível o uso do computador sem a total reinstalação do Sistema Operacional - lembra a história dos hackers russos que "sequestravam" computadores pra pedir resgate?

O Zbot é popular no submundo porque foi desenvolvido para roubar dados bancários e qualquer informação pessoal passível de comercialização no mercado negro. Mas o pior mesmo deste cavalo de tróia é que o usuário só descobre DEPOIS que o estrago foi feito, porque o Zbot é especificamente programado para ser invisível aos olhos do usuário comum: a máquina não fica mais lenta, a navegação continua exatamente igual, os programas que você usa abrem todos normalmente, não aparece nada, mas nada esquisito mesmo.

Você só vai ficar sabendo que está infectado quando o saldo de sua conta bancária zerar do dia para a noite, ou aparecer entre os procurados da Interpol por um cambalacho em Singapura sem nunca ter saído de Cachoeirinha.

Como cautela e canja de galinha nunca são demais, seguem algumas dicas para você se proteger tanto quanto possível:

1 - Se você tem uma empresa ou negócio e efetua transações online, acostume-se a dedicar uma única máquina exclusivamente para essas transações e nada mais: nada de navegar na internet ou ler emails naquela máquina. Para navegar e  ler emails, use outra máquina - se não tiver, compre um netbook, um tablet ou mesmo outro pc mais baratinho e crie o hábito de não manter nenhuma informação importante de sua empresa ou negócio na mesma máquina que usa para surfar na internet.

2 - Não custa lembrar: mantenha seu sistema operacional e o antivírus sempre atualizados.

3 - Não abra, mas em hipótese alguma qualquer anexo ou link de pessoas que não conhece e, se conhece, procure se informar antes se a pessoa realmente enviou aquele email - pode até servir de desculpa pra marcar um jantar, happy hour ou até aquele cafezinho que vocês estão se devendo há tempos.

4 - Acostume-se a olhar a barra de informações de seu browser e do software de email que usa conferindo o endereço de internet antes de clicar em cada link.

5 - Procure aprender a visualizar o código-fonte em seu aplicativo de email sempre que desconfiar de uma mensagem: isso é bem mais fácil do que parece e vai evitar muita dor de cabeça, porque só por visualizar o código-fonte você não está exatamente abrindo o email, mas tem acesso ao conteúdo da mensagem e, melhor: no código-fonte você vê para onde verdadeiramente apontam os links nos emails. Para identificar um endereço de internet no código-fonte de uma mensagem, basta procurar pela expressão "a href": o que vier entre as aspas logo depois do sinal de =, é o endereço real para onde o link aponta.

6 - Sabe aquele power point com uma mensagem linda que sua tia mandou com todo o amor e carinho? Seja insenvível: delete sem abrir. Peça desculpas depois.

7 - Procure navegar com mais segurança e não vá clicando em todos os links que seus amigos postam nas redes sociais, principalmente se vierem acompanhados de textos que não parecem ter sido escritos por seus amigos.

8 - Habitue-se a limpar regularmente seu histórico de navegação excluindo todos os cookies e aplicativos instalados (como o active X).

9 - Configure seu browser para não aceitar cookies de terceiros. Se o site que você queria ver não abrir direito por causa disso, azar dele, segurança sua.

10 - Finalmente, vale o ditado: a curiosidade matou o gato. Não se deixe levar pelo sensacionalismo nas redes sociais. Fuja como o diabo da cruz das fotos de gente pelada, celebridades em situações embaraçosas, escândalos, "revelações" sobre ovnis, paranormalidade e qualquer assunto desses que inflamam a nossa curiosidade: 9 entre 10 desses links estão contaminados com vírus que podem ir dos mais chinelos a coisa séria mesmo.

Lembre-se: com a popularização, a internet virou praça pública. Você andaria com a bolsa aberta na Praça XV em plena hora do rush? Então seja cuidadoso aqui.

Existem várias ferramentas que usadas juntamente com um bom antivírus e um sistema operacional atualizado facilitam bastante a vida. Eu costumo usar essas três:

Web Of Trust - WOT (http://www.mywot.com/), por exemplo, é um plugin para navegadores que insere um ícone ao lado dos links indicando sua confiabilidade. As cores vão do vermelho ao verde. O sistema é baseado em avaliações de usuários e da própria equipe da WOT. Tem o plugin da WOT instalado e viu um anel laranja ou vermelho ao lado do link? Não clique. Simples assim.

URL X-ray (http://urlxray.com/): não precisa instalar, mas só funciona pra endereços resumidos (shortened URL's). É só uma página com uma caixa de diálogo onde você insere esses endereços abreviados de link que ficaram populares com o Twitter mas que são um prato cheio pra gente do mal, e ela informa o endereço real.

SpyBot - Search & Destroy (http://www.safer-networking.org/): um aplicativo que você instala em sua máquina (e atualiza regularmente, é bom lembrar) e que é super-eficiente para detectar e remover parte significativa dos malwares que infestam a internet.

23 de mai. de 2013

A CENA QUE EU GOSTARIA DE VER


A 7ª mulher mais poderosa do planeta (segundo a Forbes) e chefe do Fundo Monetário Internacional - FMI, Christine Lagarde, compareceu hoje perante a Justiça francesa para responder sobre sua participação num esquema de "cumplicidade e falsificação de documentos e desvio de fundos públicos" no montante de 560 milhões de dólares.

O caso remonta a 1993 (auge a quebradeira generalizada que deixou milhões de pessoas desempregadas, e centenas de milhares sem teto, ao Deus dará); quando o ex-jogador de futebol Bernard Tapie, apoiador do partido de Laragde e Sarcozy, o UNP, e figurinha carimbada na França por vários trambiques e evasão de tributos; vendeu sua participação na Adidas ao Credit Lyonnais. Participação essa que o Credit Lyonnais logo tratou de revender por um lucro muito maior.

Sentindo-se lesado, Tapie recorreu a seus amigos no governo. Foi quando Christine Lagarde, então ministra da Economia da França, optou por submeter o caso a uma corte privada de arbitragem ao invés de submetê-lo ao sistema Judiciário. Sem muitas delongas, a corte privada condenou o consórcio de execução (CDR), o organismo público gestor do passivo do praticamente falido Credit Lyonnais a pagar 400 mil dólares mais juros a Tapie, a título de indenização.

Lagarde sempre justificou ter optado pela arbitragem movida pelo desejo de encerrar logo um processo que seria longo e dispendioso se entregue ao Judiciário, argumentando que a escolha fora "a melhor solução no momento". Em momento algum pareceu incomodada por ter usado seu poder para que 400 milhões do orçamento francês fossem parar nos bolsos de Tapie ao mesmo tempo que seu governo forçava a aprovação de inúmeras "medidas de austeridade", visando restabelecer o equilíbrio econômico pelo enxugamento da máquina pública - o que no jargão liberal significa privatizar serviços lucrativos do governo e restringir ao mínimo os serviços não lucrativas como ações sociais, saúde, pensões e aposentadorias e educação, e por aí a fora.

Ela já havia sido inquirida sobre o caso em 2008, mas com Sarcozy ainda no governo a denúncia não prosperou. Com a eleição de Hollande, o cenário mudou. O novo Procurador-Geral do Supremo Tribunal Federal francês, Jean-Louis Nadal, reabriu o caso, acusando Lagarde de recorrer à arbitragem privada em matéria envolvendo o erário público, de ter tido conhecimento da parcialidade dos juízes e árbitros que modificaram o protocolo original para incluir a noção de dano material, permitindo assim que Tapie recebesse a milionária indenização, paga pelos cofres públicos; num esquema que, segundo o Tribunal de Justiça da República, envolve "numerosas anomalias e irregularidades".