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4 de ago. de 2018

FOFOCA


Fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca, fofoca... Reparou que quanto mais repete, mais vazia e ridícula soa essa palavra?

Não gosto que falem dos outros para mim. Por educação, finjo ouvir enquanto me dou licença para pensar em assuntos mais construtivos, e nisso paro de dar aqueles sinais que todos damos quando acompanhamos a fala de alguém até que a pessoa ou se ligue que a conversa não me agrada e cuide de mudar de assunto, ou solicite feedback para a fofoca que vinha contando. Se pergunta sobre a pessoa objeto da fofoca, independente de eu gostar ou não da pessoa em questão, procuro falar algo em sua defesa ou me restrinjo a dizer que não conheço tal pessoa o suficiente para ter qualquer opinião. Geralmente é o quanto basta para pessoas suficientemente inteligentes mudarem de assunto.

Não gosto de falar de outras pessoas. Não porque gente não me interesse, que eu as despreze, ignore ou me julgue superior. O que não me interessa é ouvir detalhes íntimos de quem quer que seja, particularmente pela boca de terceiros. Minha lógica é simples: o que quer que alguém não tenha contado pessoalmente para mim, não cabe a mim saber. E, principalmente, o que quer que tenha sido a mim confiado, não cabe a mim falar para mais ninguém.

Assim, enquanto fulano fala, fala, fala e fala sobre cicrano, só consigo me perguntar o que fulano tem a ganhar revelando segredos de cicrano para outras pessoas. Afinal, fulano não se daria ao trabalho de perder minutos preciosos de vida me entediando com histórias sobre cicrano se não tivesse habituado a aferir alguma vantagem dessa conduta.

Numa visão deturpada de como as coisas funcionam, o fofoqueiro entende a fofoca como um meio de criar vínculos sociais. Só que vínculo de fato a gente cria se abrindo para o outro e expondo as próprias fraquezas e fragilidades. Pelo menos é assim que as pessoas sinceras se relacionam. O fofoqueiro, no entanto, por viver julgando para se sentir superior, teme tanto o julgamento dos outros que nessa troca ao invés de trazer para a roda o ouro da verdade sobre si mesmo, se esconde por trás da moeda podre da fofoca.

Muita gente faz isso inconscientemente. Apenas repete o padrão do ambiente onde se criou, julgando ser esta a maneira correta de estabelecer amizades, e vive angustiada tentando entender porque não consegue manter um amigo por muito tempo ou porque não consegue confiar em ninguém, e magoada porque as pessoas acabam sempre se afastando ou mesmo evitando-as. As únicas pretensas amizades que parecem sobreviver ao teste do tempo são com outros fofoqueiros em quem não podem confiar e com quem não podem contar num momento de necessidade.

É que essas relações nunca se aprofundam, nunca ganham significado, resumindo-se a um toma-lá-dá-cá de informações, um concurso para ver quem acha uma pérola no lodaçal. Sim, uma pérola, porque nesse exercício, os fofoqueiros podem eventualmente encontrar aquela informação sensível capaz de prejudicar a imagem de algum incauto. É a fofoca jackpot, a razão de ser de muito fofoqueiro de plantão. Mas como ambos sabem com que facilidade podem transitar de agentes para alvos da fofoca, o terreno onde as sementes da confiança e entrega mútuas deveriam ser plantadas, abandonado desde o começo da interação, vai se tornando não só infértil como inçado de intrigas e desconfiança.

A amizade entre dois fofoqueiros é uma espada de Damocles. Com o tempo, a ameaça de cair na desgraça pela boca do outro é a única coisa que a mantém. É quando você ouve a pessoa desabafar: "mas eu tenho que ir no aniversário de fulano". A "amizade" virou um fardo, uma obrigação.

É como aquela relação precipitada pelo calor da paixão, tão centrada na gratificação imediata das pulsões inconscientes, que ali se plantou de imediato, descuidando de garantir no terreno a presença das afinidades nos gostos, hábitos, visões de mundo e interesses que servem de sustento quando, passada a euforia e o glamour, o cotidiano se impõe com suas rotinas e, porque não dizer, banalidades.

26 de jan. de 2018

DA RAIVA AO NOJO


Se você deixou de se culpar por tudo e agora está com raiva, mas fervendo de raiva do narcisista, saiba, antes de mais nada, que está coberto de razão. Não permita que ninguém lhe roube o direito à raiva de ter sido ludibriado, enganado, humilhado e pisoteado por alguém em quem confiou: essa raiva que você está sentindo agora é um instinto e é comum a todos os seres humanos, por mais evoluídos e iluminados que sejam - ou pretendam ser.

Não existe coisa mais revoltante para o ser humano do que ser o alvo de alguma injustiça. Então, grite e esperneie o quanto e enquanto precisar - só não espere que os outros compreendam e muito menos tolerem a sua raiva, porque só quem passou pela mesma experiência é capaz de compreender a extensão da crueldade de que você foi vítima e, de mais a mais, narcisistas são hábeis em manter a aparência mais inocente do mundo ao mesmo tempo que espalham horrores sobre você.

Aliás, eles têm o hábito perverso de inverter os papéis, acusando você de ter cometido justamente as barbaridades que eles mesmos fizeram: se o narcisista além de trair ainda raspou a sua conta bancária, pode ter certeza que a história que ele cuidou de botar em circulação é que você arranjou outra pessoa e fugiu levando todo o dinheiro dele. É que mentira fica mais fácil de lembrar se tiver alguma verdade, compreende? O fato a recordar é bem simples e direto: alguém traiu e sumiu com o dinheiro do outro. Para não deixar furos na história, o narcisista só precisa trocar o "quem" - o que para ele é bem fácil, já que é incapaz de admitir qualquer erro. E, pior: com algum tempo e repetição ele acaba se convencendo da própria mentira. Sim, isso acontece. E é espantoso.

Enfim, se depois de tudo que aconteceu, ainda por cima ficou sabendo das mentiras que o narcisista espalhou ao seu respeito, você tem todo o direito de ficar enfurecido. Agora, um conselho de amiga: nem perca tempo tentando desmentir e limpar a sua reputação, porque o narcisista chegou primeiro com todas as pessoas com quem teve contato, e o mais provável é que já viesse inventando mentiras desde antes da lua de mel. E odeio ser portadora de más notícias, mas no que tange à mentira, a vantagem imediata é sempre de quem chega primeiro ( é justamente por isso que o narcisista já se empenha em minar a sua reputação desde o começo da relação); porque depois de uma pessoa ter comprado uma versão da história é muito difícil levá-la a mudar de ideia mesmo com todas as provas e argumentos racionais. Então, poupe-se mais esse estresse: ao menor sinal de que a pessoa acredita na mentira, deseje luz e se afaste: quanto mais você insistir que é inocente, mais culpado parecerá aos olhos de quem acreditou na mentira. Parece paradoxal, mas é assim que funciona. O narcisista pode até enganar pela lábia, mas a sua falta de caráter acaba sempre se revelando pelas ações.

Permita que o tempo aja em seu favor e ao invés de ficar remoendo o assunto e com isso relembrando as pessoas da mentira que ouviram, permita que se distanciem o suficiente para formar as próprias opiniões, e vá separando o joio do trigo na medida que elas forem se manifestando tendo sempre em mente que assim como você, muitos outros foram e virão a ser enganados pelo narcisista. E não caia na tolice de competir com ele confundindo popularidade com amizade: muita gente popularíssima nas redes sociais não tem a quem recorrer num momento de necessidade. Aproveite todo esse incômodo para reestruturar as amizades e a maneira como se relaciona com as pessoas, separando o joio do trigo e retribuindo proporcionalmente a confiança que sente receber, do que lutando para manter por perto pessoas em quem não pode confiar. É incomparavelmente melhor ter um único amigo em quem podemos confiar do que centenas de milhares de "seguidores" que não terão o menor problema em ignorá-lo caso venha a precisar de qualquer coisa.

Eu sei que é duro, e tem momentos que a verdade chega a queimar na garganta da gente, mas tentar defender-se acusando o narcisista é entrar como um patinho no poço de lama que ele deixou preparadinho para lhe afogar; porque pode ter certeza que é precisamente o que ele espera que você faça, porque como a pessoinha insegura e medíocre que é, o narcisista é altamente vingativo e por se julgar acima de todos e em pleno direito de destruir vidas e reputações, não existem limites para a sua perversidade.

Então, permita-se sentir raiva, mas ao invés de envolver outras pessoas, ou cair em mais uma arapuca que o narcisista deixou armadinha só esperando que você caia, busque alternativas saudáveis e positivas para extravasar: compre umas luvas de boxe, faça artes marciais, caminhe, faxine a casa, dance, o que quer que funcione e não represente risco para os outros e você mesmo. Eu, por exemplo, escrevo. Tudo que eu gostaria de falar para as pessoas mas sei que não adianta, eu boto no papel e depois eu queimo porque escrevi para desabafar, não para ler e ficar com mais raiva ainda.

Use toda a energia fornecida pela raiva como a locomotiva que vai levá-lo à maior distância possível do narcisista e todo o circo de horrores que ele criou na certeza que todo o mal cedo ou tarde tem retorno - e quanto mais tarda, maior o retorno; e que por trás da fachada feliz e bem sucedida que ele exibe para o mundo, habita um ser humano absolutamente solitário, insatisfeito, rancoroso e paranoico; e isso sozinho já é um carma tremendo para se carregar.

Mas para além da raiva, o sentimento a ser buscado na trajetória da cura é o nojo, porque ele sim é sintoma de que a luz do sol está voltando para a sua vida. Nojo é bom, porque chegamos ao nojo quando identificamos o que nos faz mal e como o faz. Feridas emocionais que deixamos infeccionar são a porta de entrada, e narcisistas e outras pessoas emocionalmente perturbadas são como larvas de moscas varejeiras, que se aninham e alimentam das nossas infecções. É uma imagem bem nojenta, eu sei, mas essa é exatamente a ideia, porque essas larvas nojentas incomodam tanto que fica impossível seguir ignorando a ferida.

É esse nojo de ver na própria pele o pedaço de carne putrefata onde o narcisista se alojou com todo o conforto, alimentando-se e usando-o contra nós que vai ajudar você não só a promover uma boa higienização na sua vida emocional, como tomar as medidas necessárias a impedir que se repita caso volte a se machucar. Além disso, conseguir visualizar o narcisista como o verme alojado na sua ferida acaba de vez com a imagem grandiosa e onipotente de que ele depende para seguir prejudicando pessoas sem arcar com as consequências - e mentalizá-lo como tal é uma excelente estratégia para acabar de vez com a falsa imagem que ficou gravada na sua cabeça.

Por importante e justa que seja a raiva, elá só persiste enquanto você seguir comprando essa falsa imagem. No instante que começa a vê-lo pelo que realmente é, o sentimento passa a ser de nojo não da pessoa em si, mas da podridão que precisa para sobreviver. E quando o nojo se instala, você só quer é muita limpeza, ar puro,  paz, saúde e sossego na companhia das pessoas que se provaram dignas da sua atenção, tempo e afeto tendo passado pelo filtro de mentiras e armações do narcisista, somadas ao novo círculo de gente honesta, leal e madura que começará a encontrar pelo caminho.

Namastê!

23 de jul. de 2017

CHEGA


Vou começar dizendo uma coisa. Você não vai gostar de ouvir, mas é a verdade: o que você permitir, vai continuar. E digo mais: vai seguir piorando.

Um narcisista que tive o (des)prazer de conhecer gostava muito de citar (e aplicar, é claro) a "politica do beliscão" para determinar o quanto podia tirar dos outros até precisar dar alguma coisa em troca.

A "política do beliscão" funciona assim: você belisca e vai apertando até a pessoa gritar. Aí você solta, mas só um pouquinho. Se a pessoa não meter a mão na sua cara e o mandar às favas, você aperta de novo desta vez com mais força que antes. E segue repetindo e apertando cada vez mais forte até não ter mais nada que espremer do infeliz.

Psicopatas, sociopatas e narcisistas - e governos, empresas ou instituições também se comportam como tais - tratam os outros exatamente desta maneira.

O que está acontecendo neste país é exatamente isso.

Nossos "representantes" não dão a mínima para nada nem ninguém além dos seus próprios interesses. Não se importam nem com a crescente legião de mendigos morrendo de fome e frio pelas ruas deste país. Pior: fazem piadinhas cruéis, comparando-os a zumbis.

E se você acha que eles se importam com a classe média, pode ir tirando o cavalinho da chuva, porque se eles têm nojo de pobre, por nós o que sentem é desprezo e querem nos esmagar como a uma barata.

É que a gente da classe média tem essa mania de não mendigar, de não implorar pelos favores dessa gente. Não. A gente tem amor-próprio, tem orgulho de ser quem é e estar onde chegou; a gente se orgulha porque ralou para chegar aonde está, e a gente quer que os outros cheguem também. A gente quer que os pobres comam todos os dias como nós, que tenham suas casas, que seus filhos vão à escola, que sonhem e façam seus sonhos realidade. A gente é gente e gosta de gente, gosta de bicho, gosta de natureza. A gente sabe que pra ser feliz é preciso que os outros também estejam felizes, saudáveis, alimentados e agasalhados; então a gente cuida e é cuidado, porque sabe que gente precisa de gente.

Sim, somos muito diferentes uns dos outros, porque a nossa classe começa no primeiro título de propriedade (seja um barraco, um JK ou uma cobertura) e vai até a casa de praia ou sítio, o terceiro ou quarto carro na garagem mais o turismo pelo mundo a fora.

A gente começa na humilde costureira que passa os dias debruçada na sua máquina e vai até a dona de butique que amanhece em Porto Alegre, almoça em São Paulo e janta no Ceará comprando para a sua loja. A gente começa no balconista da livraria e vai até o professor de Literatura com pós-doutorado que vive palestrando no exterior.

Somos muitos, somos diferentes e somos a maioria. Somos nós que movimentamos essa engenhoca toda e tudo que precisamos é dizer CHEGA, para que esse mundinho dos psicopatas deixe de existir.

Somos quem mais investe tempo, criatividade e recursos em proteger o ambiente, melhorar a educação, promover a cultura, a saúde, o livre comércio, as novas tecnologias... e também somos nós que nos organizamos para minimizar os impactos horrorosos das ações dos nossos próprios governos sobre os menos privilegiados.

São os nossos impostos, não os dos milionários e muito menos os das mega-empresas que sustentam o governo - até porque essas mega-empresas além de receberem bilhões dos impostos que nós pagamos em "incentivos" e "financiamentos", ainda se dão ao desplante de sonegar.

As grandes empresas deste país devem mais de um trilhão de Reais em impostos, e a gente se apavora só de cair na malha-fina do imposto de renda...!

Somos nós que quando precisamos alguma coisa, batalhamos e vamos atrás porque nada vem de mão beijada. A gente sabe, a gente aprendeu desde criança o valor do trabalho, do empenho, da honestidade, da dedicação e, acima de tudo, da cooperação.

Mas os psicopatas querem que esqueçamos da cooperação. Eles querem nos ver brigando por ideologia, gênero, religião, raça, futebol, celebridade, marca, carro e todo o tipo de cenoura que penduram à frente dos nossos narizes para nos distrair. E divididos assim, deixamos de ver que o inimigo é um só e de todos nós.

Porque ideologia, gênero, religião, raça, futebol, celebridade, marca, carro... quanto mais e mais diferentes, melhor: o motor da evolução é a diversidade! Diversidade é abundância, é riqueza, é beleza: a abelha não perde um segundo de vida querendo forçar o beija-flor a fazer mel. Ainda assim, os dois visitam as mesmas flores e se alternam para extrair o néctar ao invés de competir.

Por que então nos deixamos influenciar por todas essas "polêmicas"? Já parou para pensar que elas são criadas e insufladas na mídia e pela mídia justamente para acirrar os ânimos, para nos dividir? Quem tem a ganhar com a gente se xingando de coxinha, de mortadela, de bolsomito?

Eles. Nossa divisão só serve a eles, porque nós precisamos uns dos outros, mas eles só precisam que sigamos distraídos culpando uns aos outros.

Então, CHEGA de bateção de boca também: a gente está aqui para viver, amar, criar e ser feliz, não pra morrer à míngua coberto de carrapato.

14 de abr. de 2017

GENTE INGRATA


O ingrato entra na vida da gente se fazendo de grande coisa, com o nariz empinado e logo começa a revirar tudo, apontar defeitos e criticar e mostrar tudo o que falta, tudo que é pouco ou precário, onde, como e porquê precisamos "melhorar".

A essa altura, era pra gente dizer: "espera aí: isso aí que você está pisoteando é a minha vida, minhas conquistas, minha família, o meu mundo. Mas a gente não diz, porque há um fundo de verdade nos defeitos que o insatisfeito apontou, afinal, a gente sempre poderia ser e estar melhor, a vida sempre pode melhorar, né?

Então a gente dá um suspiro, arregaça as mangas, pega o balde, o rodo, o espanador e começa a faxina sem se perguntar o que o insatisfeito pretende para si com aquilo tudo. E é aí que cometemos o primeiro erro, porque imaginamos que, como nós, o ingrato queira o melhor para as pessoas de quem gosta sem que isso necessariamente represente algum benefício para si mesmos. Só que isso não é verdade, porque o ingrato não quer o que é melhor para nós: ele quer o que julga melhor para si mesmo. Ele quer que mudemos as nossas vidas e até quem somos, como nos vestimos e nos comportamos para provermos o que ele precisa para se sentir bem consigo mesmo, sem precisar um esforço significativo de crescimento e/ou adaptação para compartilhar a vida com a gente.

E mais: via de regra, o ingrato dá o seu palpite esperando que o cumpramos como soldados mostrando-se decepcionado e criticando se não seguimos ao pé da letra suas instruções. E sempre tem uma desculpa esfarrapada para nos deixar trabalhando sozinhos. Ainda assim, enquanto fazemos todo o trabalho pesado, o ingrato se põe no papel de supervisor, dando palpites e criticando os mínimos detalhes das nossas ações: nada é bom o suficiente, e ele com certeza teria feito melhor - só que não faz. E se fizer uma coisinha que seja, como levar o lixo para a rua, o fará de má vontade ou fará parecer um grande gesto ou sacrifício.

A conta nunca fecha quando lidamos com ingratos: a gente dá 100, eles devolvem cinco e agem como tivéssemos ficado devendo mais 50. Porque todo o ingrato é, acima de tudo, um egoísta incapaz de reconhecer os esforços que os outros fazem para satisfazer seus caprichos que parecem nunca acabar.

Gente que se empenha, se questiona e quer avançar na vida é presa fácil dos ingratos porque a inclinação que temos para melhorar e crescer decorre de nossa própria insatisfação. Mas insatisfação e ingratidão são duas coisas bem diferentes. Porque a insatisfação nos motiva a crescer e avançar na vida, e é por isso nem boa nem ruim. É a ingratidão cega as pessoas para a apreciação do quanto avançaram e cresceram, o que acaba resultando em mais insatisfação.

Eu posso concordar com o ingrato que o sofá da sala está velho e já poderia ter sido substituído há um bom tempo, por exemplo, mas eu trabalhei por aquele sofá, eu pensei muito tempo antes decidir por aquele modelo específico, pesquisei preços, elaborei dezenas de cenários alternativos para a sala com decorações e sofás diferentes até me decidir por aquele sofá que hoje está ali, meio desgastado e desbotado. Eu sei o tempo, a energia e o dinheiro que precisarei despender para trocar de sofá. Além disso, eu lembro muito bem como foi o dia que aquele sofá chegou e como me senti recompensada ao me atirar nele pela primeira vez. Esse sofá que o ingrato tanto critica tem um significado para mim, que vai muito além da forma, do estilo, do status ou valor de mercado: ele é uma recompensa que me dei pelo tempo de vida de que abri mão trabalhando para outras pessoas quando poderia estar me divertindo ou perseguindo meus objetivos artísticos ou pessoais.

Quando faz pouco do meu sofá, o ingrato está fazendo pouco disso tudo também. Ele está fazendo pouco das minhas conquistas pessoais, dos meus sentimentos e da minha capacidade de julgar e decidir o que é melhor para mim e de apreciar o ponto onde me encontro no aqui e agora, independente de onde pretendo chegar mais adiante.

Para ele não existem esses checkpoints na vida: se o objetivo do ingrato é uma cobertura no Leblon com vista para o mar, nada que não seja isso é capaz de satisfazê-lo. E quer saber uma coisa? Nem a cobertura no Leblon com vista para o mar irá satisfazê-lo, pois se chegar a conquistá-la, vai achar algum defeito na planta, nas janelas, no condomínio, na vizinhança... qualquer coisa para seguir sendo um ingrato e culpando a vida e os outros pela pouca sorte que tem.

Quando a gente diz "estou feliz onde estou", o ingrato logo nos rotula de "acomodados", imaginando que não temos intenção de seguir avançando e crescendo pela vida, que estamos estagnados, mortos e vazios. O aqui e agora para o ingrato é só a frustração de constatar o quão longe ele está de onde pretende chegar, e a menor diferença entre o aqui e agora e o que ele tinha imaginado vir a ser é vista como um retumbante fracasso.

Conviver com uma pessoa ingrata é sujeitar-se ao veneno constante das críticas e reclamações que primeiro nos arranca o prazer de apreciar onde estamos e tudo por que passamos para chegar até aqui, para aos poucos aniquilar a motivação para seguir em frente, pois se tudo porque passamos não vale nada, para que prosseguir? Para juntar mais nadas que não vão valer nada logo adiante também?

Essa gente negativa também vai minando nossa auto-estima porque é absolutamente incapaz da menor apreciação sincera por nossos esforços, criticando e apontando falhas em todas as iniciativas que tomamos como indivíduos autônomos e não se mostrando satisfeitas nem quando seguimos ao pé da letra as suas ordens e instruções. Se economizamos meses a fio para dar de presente algo que sabemos que o ingrato deseja, ele pode fingir surpresa ao abrir o presente, mas logo logo vai dar um jeito de demonstrar que não era bem aquilo que ele queria e/ou inventar algum motivo para não usufruir.

A convivência com uma pessoa ingrata também nos ensina a nunca esperar um agrado, um incentivo, um elogio que não venha acompanhado de uma crítica para nos magoar e baixar a auto-estima. O ingrato parece sentir prazer em escolher a torta mais engordante para o seu aniversário, cantar parabéns e lembrar sobre seus quilinhos a mais bem en passant, como quem não quer dizer nada.

Sim, como você bem deve ter deduzido a essas alturas, pessoas ingratas são muito invejosas e lá no fundo, guardam um rancor tremendo da nossa capacidade de sentir alegria pelo simples fato de existirmos, de parar para apreciar as flores no caminho entre uma e outra meta em nossas vidas, de não julgar o que recebemos pelo status ou valor aos olhos dos outros, mas pelo significado que tem em nossas vidas. Ao ingrato é impensável alegrar-se pelo par de meias recebido da tia no Natal, porque para ele tudo o que conta é o par de meias em si, não o gesto, a lembrança, o carinho e o trabalho que a tia teve ao sair de casa enfrentando sozinha as ruas e lojas lotadas. A dimensão do outro, sua existência, sentimentos, anseios e temores não existe para o ingrato: tudo que existe é a sua vontade, sempre insatisfeita. Você pode carregar o mundo nas costas pela pessoa ingrata, e ela ainda vai reclamar que é pouco ou nada daquilo que ela esperava, queria ou precisava.

E sabe o que mais? Cedo ou tarde, o ingrato vai apunhalar você pelas costas: a questão não é se, mas quando. E vai fazê-lo sem dó nem piedade, e ainda por cima culpá-lo e fazer pouco do seu sofrimento. Porque é assim que gente ingrata faz, é assim que gente ingrata é.

Aí eu pergunto: vale a pena?

Ninguém no mundo merece que você abra mão de quem é, de onde veio e para onde quer ir, e tenha certeza: pessoas gratas à vida jamais em hipótese alguma cobrarão isso de você.

Pessoas ingratas não valem o tempo que perdemos ouvindo as suas queixas, e muito menos que façamos o menor esforço para agradá-las. A gente pode ajudar, mas ao menor sinal de ingratidão, se afaste e deixe que a pessoa se vire com seus problemas. Se não fizer isso, você vai acabar dedicando mais tempo para resolver os problemas dela do que os seus. E sabe o que o ingrato vai estar fazendo enquanto isso? Arranjando mais problemas para você resolver. Entenda: é uma teia, e se você se deixar prender a coisa fica muito, mas muito complicada. Por isso é que eu digo: ao menor sinal de ingratidão, recue. Recolha as mãos e deixe a pessoa se virar sozinha. Isso não é maldade, é pedagogia.

E nem perca tempo tentando dar o troco depois de ter sofrido alguma ingratidão. Deseje Luz e deixe que se vá. A vida sempre retorna o que a gente dá e tem seu próprio jeito de lidar com gente ingrata, tirando cada vez mais. Isso se chama carma e é tão certo como o sol que nasce a cada dia. E tampouco fique parado na beira da estrada esperando para ver o carma se abater sobre a vida da pessoa ingrata. Vou contar um segredo: o que o carma gosta mesmo é de esperar até que a gente deixe para trás a história toda para então acontecer.

Porque o carma do ingrato não tem nada a ver com a gente. O carma em si tem muito menos a ver com as coisas que nos acontecem do que com a maneira como reagimos quando as coisas acontecem, sejam "boas" ou "ruins" - coloco entre aspas, porque esses julgamentos são relativos: muitas coisas que julgamos "ruins" acabam sendo boas mais adiante, e vice-versa.

O carma da pessoa ingrata é não saber reconhecer quando coisas boas acontecem, e seguir reclamando, futricando e querendo mais. E isso acaba não só tirando as coisas "boas" mas criando coisas "ruins", e aí a pessoa ingrata age impensadamente criando ela própria uma reação em cadeia de coisas "ruins" e se não se corrigir pelo caminho, acaba se dando muito mal na vida.

Mas o mais importante aqui é o seu carma, e ele vai ser determinado pela maneira como você reagir quando sofrer uma ingratidão. É preciso entender antes de mais nada que a ingratidão em si não foi o seu carma: ela é e sempre será o carma que o ingrato criou para si mesmo pelas próprias palavras e ações. Para você, a ingratidão é um teste como que num intervalo entre um carma e outro, e cabe a você e mais ninguém decidir se vai usar esse intervalo para criar um carma bom ou ruim: no caso específico você vai ter que escolher entre crescer e aprender a impor limites aos outros criando um carma "bom", ou criar um carma "ruim" abandonando o próprio caminho de crescimento para se vingar do ingrato. E vai colher futuramente as consequências dessa decisão. Simples assim.

Meu conselho é e sempre será buscar o carma bom e aprender a lição. Aquele sofá velho e desbotado vale muito mais do que a pessoa ingrata que o criticou, porque não foi ganho de mão beijada: você foi lá, batalhou, suou e conquistou aquele sofá e não existe motivo no mundo para se desfazer dele até que você mesmo decida que ele já deu o que tinha que dar. E o presente que deu, os esforços que dispendeu, as mudanças que fez em si e o tempo de vida que dispendeu por um ingrato não foram desperdiçados: você sai da situação mais maduro, mai fortalecido e determinado a valorizar e agradecer ainda mais à vida por tudo que é sólido e verdadeiro ao seu redor. Porque a pessoa ingrata pode ter trazido muitas coisas, mas roubou a verdade de quem você é, do quanto vale como ser humano e do quanto pode acrescentar ao mundo pelo próprio esforço e criatividade.

Gente ingrata também é muito anti-ecológica, se você quer saber. E se a gente entra na jogada deles acaba morrendo por dentro e virando outro consumidor ingrato, voraz e insatisfeito que quando morrer ao invés de lembranças vai deixar um monte de quinquilharias, carnês e prestações para os outros pagarem.

Será que isso é viver?

Não é. E tenho certeza que como eu, você é e pode muito mais por si e pelos outros nesta vida, e como eu, tem muito a agradecer, mesmo e talvez até por causa de tantas ingratidões que sofreu.

31 de dez. de 2016

... E SATURNO BATE À PORTA



2016 encerrou com "chave de ouro" os desvarios de 36 anos de foco excessivo no ego, no "eu". Foram 36 anos de "eu contra todos", "eu é que mando", "quem sabe de mim sou eu", "eu sou", "eu quero", "eu vou", e danem-se os outros.

Para os observadores - sim, ainda restam uns poucos por aí - 2016 foi o auge do porre coletivo cujos efeitos começaram a ser sentidos já em 2011 e 2012. Muitos, antevendo o rumo da festa, cuidaram de se manter lúcidos e ajudar a tantos quanto possível. Outros tantos foram forçados a abandonar a festa por algum acidente de percurso. Mas muitos outros embarcaram no trem da alegria narcísica, inebriados pela ilusão de que o mundo foi feito exclusivamente para o seu deleite e que as outras pessoas existem para satisfazê-los ou serem humilhadas, caluniadas e difamadas se se recusarem a fazer o papel de fantoches facilitadores das suas fantasias megalomaníacas.

O que se viu nas redes sociais em 2016 é apenas a expressão da distorção de valores criada por uma cultura que se baseia no mito do cavaleiro solitário, que vibra quando o herói salva o cachorrinho ignorando as centenas de milhares de vidas perdidas no grande cataclismo do qual ambos escapam ilesos pelo milagre de uma trucagem razoavelmente bem feita para simular a realidade na ficção. Uma cultura baseada na competição a qualquer custo, doa a quem doa; na esperteza, na malandragem, em levar vantagem em tudo, na impunidade.

Enfim, chega de 2016, porque qualquer ser humano minimamente consciente sabe bem do que estou falando, e aos inconscientes não adianta falar: eu poderia escrever uma Bíblia e ainda assim eles entenderiam qualquer outra coisa que lhes agrade mais.

O que eu quero dar aqui é a chave não só para 2017, mas para os próximos 36 anos. E isso é muito importante particularmente para as pessoas que não estarão aí para aproveitar o ciclo de Vênus, ou a bonança que virá depois. Se lá atrás, na década de 80, tivéssemos optado pela oitava superior das vibrações solares, os próximos 36 anos seriam de paz, fartura e consolidação de um novo projeto de humanidade apoiado por toda a tecnologia desenvolvida desde meados do século passado. Mas optamos pela oitava inferior descrita no primeiro parágrafo e a colheita é tudo isso que está aí e que não podemos mais ignorar.

Igualmente, não podemos mais ignorar nossa própria responsabilidade no caos no qual nos vemos inseridos. É hora de parar de projetar nos outros nossas culpas e defeitos, passar uma esponja com detergente no passado, despertar e disciplinar nossas consciências para buscar a oitava superior na qual devíamos ter ingressado coletivamente na virada do milênio.

Para isso, é preciso darmos individualmente o salto quântico para buscar o Grande Conhecimento que é tão simples como difícil de aplicar. Minha dica: começa com a respiração, com respirar funda e pausadamente pelo menos 10 vezes antes de reagir. Este é o primeiro passo para se tornar um agente no mundo, e não mais uma folha indefesa à mercê da correnteza criada pelas outras pessoas.

O caminho do Grande Conhecimento é ilustrar a virtude brilhante,
Amar as pessoas e repousar numa conduta perfeitamente boa.

Sabendo manter a quietude,
a pessoa é capaz de determinar que objetivo deve buscar.
Sabendo que objetivo deve buscar,
a pessoa é capaz de atingir a calma da mente.
Sabendo atingir a calma da mente,
a pessoa é capaz de obter êxito no repouso tranquilo.
Sabendo obter êxito no repouso tranquilo,
a pessoa é capaz de deliberar cuidadosamente.
Sabendo deliberar cuidadosamente,
a pessoa é capaz de colher o que realmente deseja.*

Que em 2017 você obtenha a quietude para seguir por si os passos da plena realização, criando em sua pessoa um centro de equilíbrio que irradie e contagie a todos ao seu redor.

Namastê.
_/\_

* I Ching - O Livro das Mutações, nota de Confúcio à linha 6 do Hexagrama 52 (Gen - Quietude)

18 de fev. de 2016

MARA E DEUS




Aquele teria sido um dia como outro qualquer, não tivesse Mara concluído que era Deus. Já devia ter desconfiado por causa dos pássaros, mas diabos, era Deus e não Einstein. “Daqui em diante os dias têm que ser sempre especiais” pensou “é assim que deve ser quando se é Deus”.

Mas logo descobriu que isso só não adiantava: os dias continuaram lerdos e cinzentos. E Mara concluiu que para ser Deus também precisaria parecer Deus. Os desenhos que encontrou em livros e na internet não ajudaram muito: não queria de uma hora pra outra virar um velho barbudo e rebugento, ainda mais com aquelas roupas e sandálias horríveis! Parecer com aquele Deus estava definitivamente fora de cogitação.

“Ainda assim tem os pássaros”.

Também havia as flores, os pequenos animais e, mais recentemente, algumas nuvens.

Com as nuvens, foi assim: outro dia ela chorou e o dia começou a chover. Ao acordar esquecida das lágrimas, o dia também esqueceu da chuva. Tentou chorar, só pra ver o que acontecia, mas não adiantou. Podia chorar daquele outro jeito, sem motivo algum, mas não conseguia chorar quando queria.

Decidiu rir, e isso foi bem mais fácil. “Como pode?”, perguntou-se “ser tão mais fácil sorrir do que chorar, quando é muito mais difícil ser feliz?”

Abriu o caderno de matemática desperdiçando horas preciosas para decifrar a lição. “Se fosse mesmo Deus” cutucava uma vozinha lá no fundo, “entenderr matemática ia ser mais fácil que dar um pum”.

Fechou o caderno contrariada: “E Deus, por acaso, precisa de matemática?”

Ligou a televisão e pelo resto da tarde esqueceu o assunto.

Às sete e vinte em ponto o perfume da mãe entrou pela porta da frente.

Sem nem perguntar como havia sido o dia, ela já veio reclamando da bagunça e mandando recolher os cadernos espalhados na sala. Mara sentiu ganas de usar seus poderes divinos, mas se conteve: Deus não perde seu precioso tempo com picuinhas.

Desligou a tv e deixou a sala sem o menor rastro de sua divina presença.

Às dez pras oito o perfume do pai chegou batendo a porta.

Às oito e quinze os três sentavam à mesa hipnotizados pela tv.

Foi quando Mara concluiu que Deus não devia assistir televisão: todas aquelas notícias horríveis só serviam pra lembrar que devia estar mais preocupado com a paz no mundo e o fim do aquecimento global do que com a cassata que esperava no freezer.

- O que você faria se fosse Deus? – perguntou de repente ao pai.

- Trocaria de carro, mandava meu patrão pro espaço e ia morar nas Bahamas – respondeu o pai sem vacilar.

- E você, mãe?

Dona Margarete respirou fundo, olhando para o teto.

- Bem... – começou puxando forte do fundo do cérebro – Não acho que fosse precisar de plástica nem de lipoaspiração... Assim, se eu fosse Deus ia ter todas as roupas e sapatos que quisesse... E também ia viajar, conhecer o mundo... Paris, Miami, Nova Iorque...! Ia ver tudo que é museu, ir à ópera... a Broadway... ai, tanta coisa!

Calada, Mara concluiu que seus pais não entendiam nada de ser Deus: o que eles queriam era ser ricos como o Onassis.

- E você, minha filha? – perguntou o pai.

- Eu?! – Mara dá de ombros – Não sei... acho que nada.

- Nada?

- É difícil ser Deus, porque qualquer coisa que a gente faça pode ter sérias conseqüências, então acho que de medo eu não ia fazer nada.

Nisso começou a novela, e todo o brasileiro sabe que novela é mais importante que Deus.
A empregada entrou e saiu como uma sombra sem sequer tilintar os pratos e talheres que recolhia da mesa. Mara a seguiu até a cozinha.

- Marialva, o que você faria se fosse Deus?

- Acabava com a miséria no mundo – foi a resposta imediata – E de quebra acabava com tudo quanto é bandidagem.

- E depois?

- Ah, depois eu ia dencansar. Que só dar conta de tanta miséria e bandidagem deve ser uma trabalheira danada.

- Mas, se acabar com a miséria e a bandidagem no mundo, pra onde é que elas irão? Porque se alguma coisa some num lugar, tem que aparecer em outro, porque nada deixa simplesmente de existir, exceto quando a gente morre, mas ainda assim fica a carcaça...

- Ora, bolas! – impacientava-se Marialva – Deus é Deus, ele dá um jeito.

- Mas, se você fosse Deus, que jeito daria?

- Sei lá – Marialva bateu com as mãos na água ensaboada da pia – Não sou Deus mesmo... mas que coisa... Sabia que pensar assim é pecado?

- Pecado? – repete Mara com assombro.

- É. – afirma Marialva secando as mãos no avental – Imaginar que a gente pode ser Deus é pecado, e dos grandes.

Mara podia ter respondido que sendo ela própria Deus, não era pecado algum, mas deixou por isso. Naquele momento Deus decidira que estava com sono. O mundo que esperasse.



Na manhã seguinte, Deus acordou atrasado para a escola, porque mesmo cansado e sendo Deus, não conseguiu pregar o olho antes das 4 da manhã.

Engoliu um copo de Nescau enquanto vestia o uniforme e correu até a parada do ônibus.

Indiferente à presença divina, o coletivo passou batido, cuspindo gente pelas janelas. Mara teve ganas de gritar uns palavrões, então ocorreu-lhe que sendo Deus, não precisava de ônibus. Podia simplesmente parar o tempo, ou fazer que passasse mais devagar e assim ir andando até a escola e aproveitar cada detalhe daquela manhã radiante.

Deus chegou na escola depois do recreio, e com isso, ganhou um bilhete nada amigável para ser assinado pelos pais.

“Acabei esquecendo de parar direito o tempo...”, pensou. “Ou, quem sabe, estivesse tão ocupado com coisas mais importantes. .. Afinal, Deus está em todas as partes e ao mesmo tempo, mas não tem como a cabeça estar em mais de um lugar...”

- Querem ficar calados, pelo amor de Deus? – gritou a professora de português interrompendo o raciocínio de Mara justo quando chegava a essas conclusões importantes.

- Não entendi, professora... – Mara levanta a mão – Quando é que Deus lhe deu o direito de barganhar em seu nome?

A classe explode em gargalhadas.

Logo, Deus ganhava um segundo bilhete ainda menos amigável para ser assinado pelos pais.

- Eu não entendo... – Mara argumentara ao diretor, que por ser padre devia ter muita experiência nessas coisas sacras – Não foi o próprio Deus quem disse “não usareis meu nome em vão”?

Padre Manfredo teve que sorrir:

- É que não levamos as coisas assim, no pé da letra...

- Mas sempre esperam que Deus leve, não é?

O diretor fechou a cara, rabiscou alguma coisa no bilhete e a mandou esperar no corredor.
Enquanto esperava, Deus ficou sentado na secretaria pensando. E quanto mais pensava, mais concluía que as pessoas não levavam Deus tão a sério quanto parecia. Afinal, a qualquer coisa que acontecia exclamavam “Deus me livre!”, um grande rebuliço era sempre um “Deus nos acuda”, sempre que se despediam, era “vá com Deus”, como se Deus fosse um chaveiro, um celular ou um cartão de crédito “não saia de casa sem ele”... E Deus isso, Deus aquilo.... Ela é que não queria ser mandada de lá pra cá por qualquer bobagem... Mas o pior era o “meu Deus”... Ora, e lá Deus era propriedade de alguém?

A cigarra tocou, e Deus foi mandado de volta à sala de aula.

- Por sua causa, aquela bruxa mandou a gente ler todo o capítulo pra semana que vem, e já avisou que vai ter prova!

Aquela não era a vontade de Deus.

Saindo da escola ao meio-dia, resolveu caminhar de volta também. Entre a casa e a escola havia pelo menos umas três igrejas, um centro espírita e um terreiro de umbanda. Decidiu espiar se estava por lá.

O primeiro templo era uma sala comercial adaptada para acomodar um monte de pessoas sentadas em longos bancos perfilados à esquerda e à direita. Ao fundo, uma escrivaninha coberta por uma pano branco fazia as vezes de altar. No canto, uma bateria, microfones e amplificadores misturava-se a uma barafunda de fios remendados. Um sujeitinho moreno e atarracado, enfiado num terno barato a recepcionou do fundo da sala:

- Ah, uma jovem fiel! O quê a aflige, minha filha?

- Nada. – mentiu Mara – Só entrei pra olhar. Gostei da idéia da música.

- Então volte às sete, que é quando temos nosso culto... – convida o homem – É muito bonito: todos cantamos em louvor a Deus.

- Ótimo! – exclamou Mara se retirando.

- Espere! – exclama o homem entregando um folheto – Leve isto, e vá em paz, minha filha.

Ó Deus de Abraão, de Jacó e de José
Tua Luz nos traz justiça
Confirmando a nossa fé
Por isso aqui estamos e erguemos nossa voz
O Senhor é meu Pastor
Dize e responderei

Deus seguiu então para o segundo templo, bem mais requintado e luxuoso que o primeiro. Logo à entrada, à guisa de recepção, numa caixa de acrílico transparente cheia de notas e moedas lia-se a inscrição “dízimos aqui”. Um pequeno grupo de pessoas se espalhava pelos bancos contemplando as paredes lisas com olhares vazios. Uma mesinha no canto disponibilizava panfletos impressos perfeitamente organizados em pilhas com impressões em cores diferentes. Deus pegou um azul.

SINAIS DA SEGUNDA VINDA
Jesus Cristo Voltará à Terra
O Salvador disse a Joseph Smith: "Eu Me revelarei com poder e grande glória (...) e (...) habitarei com os homens na terra por mil anos, e os iníquos não permanecerão." (D&C 29:11; ver também capítulos 43 e 44, "A Segunda Vinda de Jesus Cristo" e "O Milênio".) Jesus nos disse que certos sinais e acontecimentos irão prevenir-nos quanto à proximidade de Sua segunda vinda, também chamada de "o grande e terrível dia do Senhor" (D&C 110:16).

Assombrado, Deus seguiu a leitura:

Os Lamanitas Tornar-se-ão um Grande Povo
O Senhor disse que quando Sua vinda estivesse próxima, os lamanitas se tornariam um povo reto e respeitado. "Mas antes que venha o grande e terrível dia do Senhor (...) os lamanitas florescerão como a rosa" (D&C 49:24). Grande número de lamanitas da América do Norte e do Sul e do Pacífico Sul estão hoje recebendo as bênçãos do evangelho.

E mais adiante:

O Conhecimento dos Sinais dos Tempos Pode Ajudar-nos
Ninguém, exceto o Pai Celestial, sabe exatamente quando o Senhor virá. O Salvador ensinou a esse respeito ao contar a parábola da figueira. Ele disse que, quando vemos a figueira soltando folhas, sabemos que o verão está próximo. Da mesma forma, quando virmos os sinais descritos nas escrituras, saberemos que Sua vinda está próxima (ver Mateus 24:32-33).
O Senhor deu esses sinais para ajudar-nos. Podemos, dessa forma, colocar nossa vida em ordem e preparar a nós próprios e a nossa família para o que ainda está para vir.
Não devemos preocupar-nos com as calamidades, mas esperar com alegria a vinda do Salvador. O Senhor disse: "Não vos perturbeis, pois, quando todas estas coisas (os sinais) acontecerem, sabereis que as promessas que vos foram feitas se cumprirão" (D&C 45:35). Ele disse que os que forem retos não serão destruídos quando Ele vier "mas suportarão o dia, e a terra ser-lhes-á dada por herança (...) e seus filhos crescerão sem pecado (...) pois o Senhor estará em seu reino, e a Sua glória estará sobre eles, e ele será o seu rei e o seu legislador" (D&C 45:57-59).

Discretamente, Deus surrupiou um exemplar de cada cor, enfiou na mochila e saiu dali sem pagar o dízimo.

A terceira parada foi num prédio cinzento onde se entrava subindo uma enorme escadaria. O interior era escuro e frio, e as paredes decoradas com uma profusão multicolorida de pinturas e estátuas competindo pela atenção com os vritrais das janelas em arco. Como nas anteriores, longos bancos se alinhavam perfeitamente, mas este templo tinha seis fileiras que convergiam numa abóbada dourada dominada pela fantasmagórica figura de um enorme cristo ensanguentado suspenso por fios de náilon. Num canto logo à esquerda, duas velhas ajoelhavam diante de dezenas de velas. Dali é que vinha o cheiro rançoso de parafina.

Curioso, Deus seguiu pelo tapete vermelho até chegar a cúpula dourada. À esquerda e à direita, reparou na riqueza dos entalhes das casinhas que abrigavam as imagens coloridas em dourado, vermelho, cinza e branco. Intrigado, Deus subiu os cinco degraus que colocavam a cúpula meio metro acima do resto do lugar. Uma mulher austera apareceu do nada para arrastá-lo escada abaixo:

- Não tem respeito? – ralhou.

- Por quê? É proibido? – perguntou Mara confusa.

- Os passos dos fiéis páram ao pé da escada.

- E Deus, pode?

- É onde ele mora.

Deus ficou parado, boquiaberto enquanto a mulher subia os degraus resmungando:

- Essas crianças de hoje... Não têm respeito por nada!

Deus observou a cúpula tentando encontrar o seu quarto. A única coisa com alguma privacidade era uma pequena capelinha dourada, trancada à chave. Mas ele é que não ia querer morar numa casinha tão apertada, ainda mais ficar trancafiado daquele jeito, sem poder sair quando quisesse!

De saída, recolheu um panfleto impresso em tinta cor de laranja.

Eu, pecador, me confesso...
... Tende piedade de nós

cântico de entrada:

A ti meu Deus cantemos os homens louvor
Ao teu amor respondam com mais amor
Senhor a tua igreja somos nós
Numa só voz
É teu tudo que somos e o que temos
E aqui vimos para adorar
Senhor, a graça imensa de viver
Sem merecer,
A graça de ser filho e de te amar
Vamos louvar
E agradecer
Da culpa tantas vezes repetida
Em nossa vida,
Senhor, a tua Igreja militante
Quer neste instante
Pedir perdão
Senhor, no sofrimento e na alegria
De cada dia
Ajuda-nos a amar o que é melhor
E o teu amor
Aumente em nós

Deus saiu dali perguntando-se o que aquela gente fizera de tão horrível, e o que ele fizera para merecer tanta gratidão. Do que estavam falando? Ele ainda não fizera nada, era Deus só a uns dois dias... Ou será que já era Deus antes de saber? Talvez antes fosse Deus em outra pessoa, e era ela só há pouco tempo. Se fosse assim, sabe-se lá o que tinha feito antes... Deus é que não sabia.

Esses pensamentos foram esquecidos ao chegar à porta do prédio baixo e mal conservado onde dezenas de pessoas humildes se espremiam, algumas tão doentes que mal conseguiam parar em pé. Quando Deus já ia entrando, um homem magro de terno e sandálias advertiu:

- Tem que esperar na fila.

Deus entrou na fila e esperou. Aos sussurros, as pessoas contavam dores e mazelas mazelas. Deus esperou por mais quinze minutos, mas como a fila não andava decidiu deixar para outra hora. Àquela altura já eram duas e meia e Marialva devia estar subindo pelas paredes.

Mas tinha ainda uma última parada.

Entrando por uma viela lamaçenta, chapinhou até um casebre reformado com as paredes caiadas de branco.

- Está fechado. – anunciou uma velha gorda debruçada na janela de um barraco logo à frente ainda antes que Deus tocasse a grade do portão – Se quer serviço, bote num envelope com o nome, o pedido e o dinheiro.

Deus catou na mochila uma nota de 1 real, e demorou para rabiscar um pedido numa folha do caderno. Dobrou cuidadosamente a folha com o dinheiro dentro e ficou esperando.

- Bota aí, na caixa do correio. – disse a velha sumindo por trás da cortina floreada.

No último instante, Deus mudou de idéia. Guardou a folha dobrada com o dinheiro e voltou chapinhando até a avenida.

Como era de se esperar, Marialva estava subindo pelas paredes:

- Por onde andou, menina? Tem idéia do susto que me pregou? De onde é que saiu esse barro todo? Agora eu é que vou ter que lavar!

Mara quase respondeu que não cabe aos mortais questionar os caminhos de Deus, mas achou mais prudente largar a mochila no quarto e esperar enquanto o almoço esquentava no microondas.

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imagem: “The Child Grew Strong in Spirit”, por Ann Guerri

2 de jul. de 2015

RATOS NO PORÃO


Rato é coisa braba: só depois de ver o primeiro é que a gente descobre que a casa está infestada - provavelmente há anos.

Podemos reagir de várias maneiras - minha experiência é que elas seguem esta ordem:

Primeiro, superado o horror, a gente tenta se convencer que era só um, e que entrou na nossa casa por acidente. Afinal, a gente não mora em nenhuma pocilga, né?

Mas ficamos alertas: inspecionamos cuidadosamente as embalagens dos gêneros antes de usar, damos uma geral na despensa, compramos latas para acondicionar tudo que possa atrair os roedores e, confiantes na nossa capacidade de lidar com a situação, seguimos em frente com o que quer que esteja ocupando nossa atenção no momento.

Mas a lembrança daquele rato não nos abandona. Acordamos no meio da noite ouvindo ruídos estranhos na casa. Prendendo a respiração, nos esgueiramos até a cozinha, agarramos uma vassoura e acendemos a luz de sopetão... nada!

Voltamos para a cama rindo de nós mesmos. Na manhã seguinte, reparamos que metade das bananas foi roída durante a noite.

Nojo, fúria, frustração e raiva, muita raiva: como pudemos ter sido tão idiotas de deixar as frutas ao alcançe daquele monstro?

Nesse espírito, decidimos encontrar o diabo do rato nem que seja preciso colocar a casa abaixo. Arregaçamos as mangas e começamos pelos locais mais óbvios.

Ao movermos aquela caixa de papelão cheia de cacarecos que já deveríamos ter posto fora há anos, o cheiro da urina e fezes nos faz recuar nauseados. Colocamos uma máscara de dentista, e limpamos o local só para nos depararmos com a mesma cena por trás do armário, da cristaleira, do fogão... onde quer que olhemos, encontramos os vestígios, nunca o rato.

Mas sabemos que ele está aqui. Mais: sabemos agora que não é só um, que são muitos, e que certamente já estão aqui há muito, muito tempo. Tanto tempo que nunca saberemos desde quando, como, porquê e quantos são.

Envergonhados, tratamos a questão como um segredo sujo. Afinal, todos acreditamos que em casa limpa não entra rato. E tentamos resolver sozinhos o problema quando justamente o que deveríamos fazer é buscar imediatamente a ajuda de algum exterminador de pragas, de um especialista.

Podemos perder o resto das nossas vidas armando arapucas e ratoeiras convencidos que se pegarmos um a um, eventualmente acabaremos com a praga. É a ilusão de controle. E não vai adiantar. Na verdade, é muito pior, pois só vai perpetuar o trauma de termos que lidar com cada vez mais cadáveres esmigalhados em poças de sangue que teremos que limpar sozinhos. Pode ser que com o tempo a gente crie como que uma crosta emocional que nos impeça de sentir aquele horror. A mesma crosta que vai nos impedir de sentir qualquer prazer na vida também.

Há quem depois do terceiro ou quarto rato morto decida ignorar e deixar que a casa se infeste até que os ratos percam a inibição de compartilhar da sua cama - e eles irão, pode ter certeza: se você deixar tudo como está, os ratos irão tomar até o seu travesseiro. Muita gente a essa altura, se deprime a tal ponto que nem sente quando os ratos começam a devorar suas extremidades e vai morrendo aos poucos, se esvaindo no próprio sangue. Outros enlouquecem e tocam fogo na cama e queimam junto com os ratos. Com sorte, algum bombeiro evitará o pior. Com sorte, sairão com queimaduras leves. Muitos, no entanto, ficarão tão deformados que mal se reconhecerão no espelho pelo resto da vida.

Há quem depois do terceiro ou quarto rato morto decida dedetizar a casa por conta própria, e acabe se envenenando a cada alimento que levar à boca, a cada roupa que trocar, a cada vez que deitar entre os lençóis. Ou exagere na dose inicial, e caia intoxicado no meio da cozinha para só ser descoberto semanas depois.

Há ainda quem decida simplesmente abandonar a casa, faça as malas, bata a porta e se vá, deixando que os próximos inquilinos se virem com o problema. Muito bem, a maioria dos ratos ficou para trás, mas na pressa de encaixotar a mudança, alguns ratinhos podem seguir junto, escondidos no fundo das malas.

E há quem remova todos os gêneros, afaste todos os móveis, esvazie todos os armários, arrume cuidadosamente uma pequena mala de mão só com o essencial e saia, entregando a chave a um especialista para que proceda à erradicação de forma segura; retornando depois para arejar, limpar, organizar e então chamar o caminhão de mudança, porque seja como for, depois do primeiro rato aquela casa nunca mais será "segura" para si.

E, finalmente, há quem adote um gato (ou mais de um), ganhando assim não só a proteção atenta como a amorosa companhia de um amigo confiável com quem compartilhar o aconchego nas noites de inverno.

Por quê falei de ratos? Porque com a mentira é a mesma coisa.