1 de out. de 2007

O LOBO GUARÁ

O charmoso varão acima atende pelo nome Chrysocyon Brachyurus, mas é mais conhecido pelo apelido "Guará". e é o maior mamífero canídeo da América do Sul. Já foi extinto no Uruguai, e provavelmente na Argentina.

Ele mede até 1 metro no ombro e pesa entre 20 e 25Kg. Ao contrário dos lobos, os guarás são solitários, restringindo-se a parcerias durante o período de acasalamento e criação dos filhotes.

Alimenta-se de pequenos animais e aves, mas é capaz de comer de tudo. Um detalhe: o guará depende de uma planta para sobreviver. Sem digerir as folhas da "lobeira" o guará acaba morrendo de complicações renais.

Tá bom que o rapaz acima parece mais uma raposa misturada com hiena e com patas de veado (o bicho, ok?). É feio, mas é nosso. E merece ser preservado.

Assim, se você por acaso cruzar com um por aí, não se assuste; e, acima de tudo, não atire. Os guarás são tímidos, e não representam perigo aos humanos (ao contrário de seus parentes europeus).

Uma curiosidade sobre os guarás: eles só dão cria no mês de junho e enquanto amamenta, a fêmea permanece junto à ninhada sendo alimentada pelo parceiro.

VOTO SECRETO? NÃO!!!



Alegam os defensores do voto secreto nas câmaras, assembléias e senado que ele serviris para proteger os mandatários de "pressões espúrias".

Discordo em gênero, número e grau. Primeiro porque as "pressões espúrias" ocorrem às claras, são esfregadas diariamente em nossa cara de tacho. Provadas e comprovadas e ainda assim nada acontece.

Segundo, porque detentor de mandato popular não tem direito a segredo. Nem nas votações nem na vida privada. A vida do homem público é pública: não cabe votação secreta, assim como não cabe sigilo bancário, fiscal ou mesmo telefônico.

Afinal, não são eles que estão decidindo nos colocar a todos sob as lentes do superfisco, prorrogando essa abominação jurídica que é a CPMF, com a desculpa de que não só o governo precisa dessa (mais uma!!) receita, como ajuda a combater a sonegação? Nós, cidadãos somos presumidos culpados até provarmos o contrário, enquanto à casta política são assegurados o foro privilegiado e a votação secreta.

Quem quer manter a privacidade, que não concorra a mandato eletivo.

COISAS QUE ESPANTAM VI

Sapato de matar barata em canto com salto agulha e calça jeans.

NOSSOS MELHORES AMIGOS

Cá entre nós, é muita, mas muita arrogância qualquer dono de cachorro sequer imaginar que o amor e a lealdade superam os instintos de um cão.

Ultimamente pululam na mídia notícias sobre ataques e mordidas. Em muitos casos letais. Isso não causa espanto: ataques caninos a humanos são tão antigos quanto a relação entre as duas espécies. O que sempre me assombra é a reação dos donos: "Oh, mas ele sempre foi tão mansinho, nunca atacou ninguém!".

Sabe o que me faz ferver o sangue? Quando vejo alguém com o cachorro solto - e não importa se é um poodle ou um rotweiller -, correndo esbaforido pra mãe horrorizada com a criança no colo e se ensinando: "Ele não morde!"

Mentira!!! Todo o cão morde, é sua natureza.

Eu tenho cachorro. Sempre tive, e acho difícil encontrar neste mundo pessoa que mais os adore do que eu. Cresci no meio de um bando de cachorros de várias raças. Meu pai já tinha a "mágica": não raro levou sermão dos guardas na praia por causa do bando de cachorros que o seguia pelas ruas. Detalhe: nenhum era dele, eram cães de rua que movidos por algums misterioso instinto nele reconheciam um amigo e protetor.

Mas uma coisa é amar os cães. Humanizá-los, atribuindo sentimentos e capacidade racional; isso sim é ser irracional. Pior: é não amar o cão, porque amor vem do entendimento, de compreender e aceitar o outro como tal e não um reflexo de si mesmo.

Não digo com isso que não haja por aí uma legião de cães absolutamente dóceis, adoravelmente simpáticos e abertos à presença de estranhos.

Quando tinha oito ou nove anos, andei de cavalo no lombo de um dinamarquês. Quase matei o dono de susto, mas o cão não me atacou. De outra feita, ainda mais cedo, acho que com cinco ou seis anos, invadi o quintal de uma casa enorme pra brincar nos balanços. Dois dobbermans me cercaram para horros de minha irmã. Não fui atacada, e isso que estava no território deles.

Quem me mordeu foi o nosso boxer brincalhão que não dava conta de uma mosca.

Quem mordeu meu filho duas vezes foi o labrador abobalhado que perambulava pelo fundo do páteo da casa de meus pais. Tão bobalhão era o bicho, que eu chamava de "Udo Banana"!

Amar um cão é essencialmente respeitar sua natureza, entender suas motivações, ensiná-lo a conviver com seres caóticos e erráticos como nós. Porque cães têm dificuldade em lidar com o caos: eles precisam de ordem, de rotina; de causa e consequência. Regras simples e claras: "xixi no tapete, não", "a bolinha é o teu brinquedo, não os sapatos", "deixe eu me aproximar do prato quando estiver comendo"... Coisas assim: preto no branco.

Eles se esforçam, (e como!), pra assimilar o nosso caos. Pra garantir nosso amor (que na cabecinha deles se traduz em boa comida, água e um lugar seguro pra dormir), chegam mesmo a recalcar seus instintos. Mas isso de forma alguma significa que não estejam lá. Se houver motivo na perspectiva do cão, ele vai atacar. Não importa se é um pinscher ou um dogue alemão.

Isso me irrita, sabe? Essa arrogância nas ruas, nas praças; vitimando crianças e velhos: cães são carniceiros, e se atacam presas vivas escolhem as mais fracas. E também são territorialistas: qualquer local onde possam correr livres e demarcar passa a ser seu território, a ser defendido com unhas e dentes. Literalmente. A guia tem o salutar efeito psicológico de lembrar ao cão que a rua não é o seu território: seus movimentos são limitados, sua liberdade é restrita.

Se você leva o cão à praça todos os dias, e o solta deixando que corra livremente, fuçe os traseiros de quem quer que esteja passando e marque todas as árvores, pedras e cercas que encontrar, o que você está ensinando? Que a praça é território dele. Como o carniceiro territorialista que é, ele vai naturalmente defender esse território contra qualquer ameaça, sem distinção de sexo, idade ou espécie.

Cresci ouvindo de meus pais que os nossos direitos acabam quando tocam os direitos dos outros.

Mantenho meu cão na guia, e se alguém se aproxima para acariciá-lo, perguntando se morde, sou sincera: "até hoje não, mas não posso garantir". Isso basta pra que a pessoa se aproxime com cuidado, sem sobressaltar o animal.

UM MUNDO EM DESEQUILÍBRIO



Lembra o filme "A História sem Fim"? Lembra o "nada", aquela sombra aterrorizante que avançava engolindo tudo?

É o que aconteceu aos iraquianos. Do dia pra noite, o "nada" chegou.

O Iraque seria o Jardim do Éden, a reprodução do céu feita na terra por Deus. Terra de Abraão, da Torre de Babel, da Babilônia. Berço da agricultura, da escrita, da roda, da astronomia, da teoria jurídica, da burocracia e da urbanização. Terra da Árvore da Vida. Bagdá, a "Cidade das Mil e Uma Noites".

Assediada por mesopotâmios, sumérios, acadianos, babilônios, assírios, persas, gregos, árabes, mongóis, turcos e finalmente, os britânicos; violência, usurpação e saques fazem parte da memória cristalizada daquele povo.

Segundo a wikkipédia, o Iraque nasceu de uma "costura mal-feita" no fim da I Guerra. O primeiro ministro inglês da época pensou em apenas reduzir os gastos militares do Reino Unido em suas colônias. Disso, ele criou o país Iraque para otimizar custos, ao contrário que seria se tivesse feito outros países na região.

Em outras palavras: pra minimizar "custos", os sábios súditos da rainha enfiaram xiitas, sunitas e curdos no mesmo saco. Pau que nasce torto...

Mas, enfim, não vejo como um regime democrático poderia manter unidas essas facções cujo ódio remonta a milhares de anos. É a mesma tragédia dos ruandeses com os Utus e os Tutsi. "Briga de irmão é de difícil solução", teria dito a minha avó que era muito afeita a rimas. Bem ou mal, Saddam botou alguma ordem no galinheiro e o país prosperou a despeito da corrupção, da brutalidade e tudo o mais que sabemos (embora as tais armas químicas de destruição em massa e documentos que comprovassem o financiamento aos terroristas nunca tenham vindo a público).

Ergueram-se estradas, monumentos, escolas, universidades e hospitais. Centros comerciais, cinemas, condomínios... Bagdá tinha vida como qualquer grande capital. E tinha cultura também.

Mas então o "nada" chegou. Do dia pra noite as pessoas se viram privadas de todos os serviços e direitos. Apagaram-se as luzes, a água foi cortada, os serviços básicos de saneamento e saúde degradados ao mínimo. A ordem social se foi e se a guerra civil não tem proporções ainda mais catastróficas é porque há uma maioria que resiste, que luta desesperada e silenciosamente para voltar à normalidade.

Mas essa normalidade é uma miragem cintilando no horizonte árido dessa e das próximas gerações. Nada mais será normal por décadas. Milhões de vidas foram interrompidas e não há reparo, não tem conserto: kaputz!

Botar o lixo na calçada, ir ao médico, visitar familiares ou amigos, fazer jogging, passear o cachorro, ir à aula, trabalhar, ir às compras... Pra não falar em sair à noite, pegar um cinema, um restaurante: qualquer atividade é de alto risco. Ficar em casa pode ser uma atividade de alto risco.

De um lado as milícias fazem tiro ao alvo a qualquer coisa que se movimentedando a parecer alguma simpatia pelos yankees. Do outro, adolescentes imberbes com a adrenalina turbinada pelo medo e pelos hormônios jogam Doom pelas ruas, disparando primeiro pra nem perguntar depois.

Um povo estraçalhado. Sem reparo. Só resta rezar que depois de desmoronar o castelo de cartas que Saddam montou eles fiquem por lá até que a coisa começe a entrar no eixos. E se leva muito tempo pra construir uma nação, leva muito, mas muito mais pra reconstruir.

E sabe o que é pior? Essas vidas estraçalhadas, brutalmente interrompidas e violentadas poderiam ser as nossas; porque não há garantias num mundo em desequilíbrio.

30 de set. de 2007

PAPAGAIOS NAS PRAÇAS



Porto Alegre é interessante. Sinceramente, não é bonita. É, assim, aquela adolescente meio feinha mas simpática que a gente aprende a gostar.

Digo aprende, porque pra gostar de Porto Alegre tem que querer gostar. Tem o brique, é. Mas cá entre nós: é meio xinfrim. As "antiguidades" ou não são antigas de todo ou não passam de um amontoado de maçanetas e ferragens pra lá de usados. E o artesanato é meio que assim lá não muito artesanal, uma vez que as peças se repetem com precisão quase industrial. Mas ainda assim, tem o brique e o brique veio pra ficar. Viva o brique!

Tem também os morros e o pôr-do-sol no Guaíba - que muitos portoalegrenses gostam de apregoar de peito estufado tratar-se do mais belo do mundo. Cá entre nós, o pôr-do-sol nas savanas da África é muito, mas muito mais bonito. Pra não falar do Sahara. Mas, tudo bem, é bonito e está lá. Todos os dias, quando não chove. E como chove!

Mas sabe o que Porto Alegre tem também? Os papagaios, gente! De uns cinco anos pra cá, também temos os papagaios. São papagaios louros, não o charão que seria de se esperar já que o charão, esse papagaiozinho meia-boca de cara preta e com detalhes vermelhos é a espécie nativa daqui.

Serão fugidos? Acredito que sim, que são evadidos de cárceres privados aproveitando agora as maravilhas da vida semi-selvagem e deleitando-se com bolotas de plátano e outras frutinhas que vingam encontrar. Não gritam "louro! louro!", seus gritos mais se assemelham aos dos corvos.

Outro dia, no Nacional da Nilo vi um bando passar voando a menos de 6 metros de altura em plena tarde de sábado. Passaram gritando, um bando grande. Engraçado: ninguém se deu ao trabalho de olhar, ocupados que estavam com as compras, o jogging; em notar e serem notados (porque essa é a moral nas cercanias da Encol, não é?). Passaram, e ninguém viu. E eu ali, parada no meio do estacionamento com as mãos atulhadas de sacolas, olhando pra cima, de boca aberta, extasiada.

Tem outro bando pelo Menino Deus e cercanias. O pessoal de lá também parece que não vê.

Ia passando (coincidentemente perto de outro Nacional) pra pegar o carro no mecânico, e ouvi a gritaria. Comentei com o rapaz e ele baixou a voz para um sussurro: "Pois é, eles estão sempre por aí..."

Então aprendi outra coisa sobre Porto Alegre.

Não é que as pessoas não vejam os papagaios. Assim como não é que não reparem nas legiões de sabiás, nas corruíras, cambacidas, bem-te-vis, beija-flores, pica-paus, nos cardeais da Redenção (pois é: há cardeais na Redenção, eu mesma já ví quatro de uma sentada só). De alguma forma, o portoalegrense parece ter aprendido que a melhor relação possível entre o homem e a natureza é a ignorância. No sentido literal. Ignorar é a única maneira de preservar.

A humanidade tem o toque de Midas às avessas no que tange à natureza: onde botamos a mão a coisa desanda. O melhor mesmo é ignorar: assim talvez estejamos garantindo que essa e muitas gerações prósperas de papagaios se multipliquem nesse ecossistema que eles parecem entender melhor do que nós.

29 de set. de 2007

O QUE É "VERDADE"?



Acredito que "verdade" é a interpretação que cada um de nós faz da realidade.

Não observamos a realidade como um quadro estático, com a frieza de uma máquina fotográfica: nossos sentidos captam um evento, e nosso cérebro faz a interpretação, usando como dicionário nosso repertório vivencial/emocional.

É por isso que me assustam os "detentores da verdade". Ninguém pode se arvorar a tal condição, porque somos intrinsecamente incapazes de observar sem interpretar.

Assim, o que tomamos por "verdade" trata-se mais de fenômenos subjetivos do que eventos objetivamente comprovados.

No fim das contas, "verdade" é o sorriso da Monalisa. Pra muitos (eu inclusive) ela nem está rindo.